Teoria da Constipação – A publicidade que deseja conquistar o mundo
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Da mesma forma que os estereótipos de profissionais de propaganda e publicidade são associados (muitas vezes com razão) ao sucesso, à arrogância e ao egocentrismo, existe um outro bem menos conhecido que resolvi chamar de A teoria da Constipação ou Síndrome do Criativo Travado (SCT).
Testes com ratos demonstraram a terrível luta que ocorre no interior deste sujeito doente no momento em que uma nova ideia é apresentada ou surge em sua cabeça. Um dos ratos (que chamaremos de Pink) carece de qualquer informação objetiva sobre o cliente, não lê o briefing (ou não o entende) e dispara as mais loucas possibilidades sem nenhuma preocupação com as demais fases do processo, como pesquisa, planejamento, prazos, etc. Movido por um espírito de festa rave (ou de porco), o rato Pink gosta mesmo é de mostrar para os demais o quanto ele “pode” ser criativo e não perde a chance até de brigar por uma ideia sem o menor sentido para o cliente. Para o céu e além, este é o seu lema.
O outro rato (que chamaremos de Brain) é exatamente o oposto. Obstinado e presunçoso, acredita que a sua ideia é infálivel porque passou quatro horas pesquisando na internet, conversando com o cliente e fornecedores, dissecando cada falha no produto e na comunicação anterior. Pouco importa se a ideia é batida ou superficial demais. Ele não quer saber de “viagem”. O rato Brain chega na reunião com um DVD de 8G repleto de material, apresentação de powerpoint e o diabo a quatro que justifica o caminho a ser percorrido. No final, não espera menos do que o reflexo de seu próprio sorriso vencedor no rosto de cada um da sua equipe. E é bom aplaudir, senão…
A SCT varia em grau e pode ocorrer antes mesmo do sujeito entrar no mercado de trabalho. Todo mundo já conheceu um “rato Pink” ou “rato Brain” na hora de fazer um trabalho na facu. Não é difícl encontrar os dois no mesmo grupo se degladiando enquanto o restante vai ficando de saco cheio e acaba saindo pra tomar uma, que é bem melhor. No mercado publicitário, existem casos onde o atendimento, toda a criação e até o próprio cliente estão infectados. Mas, felizmente, tem cura. Pelo menos na teoria.
Para não ficar preso na jaulinha junto com Pink e Brain é preciso fibra, muita fibra. O processo criativo tem seu lado lúdico, animado, porra-louca, cor de rosa. Eu chamo de brainstorm, mas você pode chamar de pinkstorm, se quiser. Porém, se você passou dos 16 anos já descobriu que fantasia tem limite e que até carnaval é coisa séria e precisa de organização para funcionar.
Do mesmo modo, de nada adianta uma ideia “Brain” que é travada e seca, totamente voltada para o lado comercial (vendas) sem aquele tempero especial que garante a lembrança, o chamado “recall”. Afinal, você é ou deseja ser publicitário, não administrador de empresas, certo? Senão, decida-se e vá para área de vendas e marketing, onde seu talento com certeza irá crescer.
Pink e Brain vivem dentro de nós, cada um de um lado do cérebro. E somos todos infectados pela SCT. Experimente no seu próximo projeto reconhecer quem está falando por você, se é o Pink ou o Brain. E lembre-se: não é possível conquistar o mundo todos os dias.
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Marcos Oliveira, 40, é redator publicitário e casado com a Arte (porque amante já tem muito). Não acredita em corretor ortográfico e detesta acordar cedo para descobrir depois que a reunião de briefing foi cancelada. Seu blog de variedades possui apenas um seguidor: ele mesmo e suas duplas personalidades. Escreve para a Casa do galo quinzenalmente, às quartas-feiras.
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