Some na massa
|
|
|
O título deste artigo veio de uma música do Arnaldo Antunes que se chama “Na massa”. Abri meu livrinho sujo sobre sociologia na publicidade e lá estava a palavra. Escutei esses dias alguém falando de um tal público-alvo que abrange todo mundo. Existe isso? O que seria a tal da massa? Imagino algo como seres com cabelo playmobil, andando pausadamente, mesmo ritmo, fundinho musical caminhando-e-cantando-e-seguindo-a-canção-somos-todos-iguais-braços-dados-ou-não.
Lembro de uma professora minha que dizia: “não existe comunicação para a massa. Massa é tudo – todas as pessoas, todas as classes. Não é possível.” E, sabe, eu concordo com ela. O pior é quando alguém tenta te explicar qual é o público-alvo daquela campanha de varejo. “Ah então, meu, tipo, assim, é pra massa.” Falta massa cinzenta, isso sim. Tudo bem, estamos falando de um grupo heterogêneo, disperso, vasto, mas acho muito perigosa a simplificação em uma palavra só.
Irrita-me um pouco a produção em série de besteirol. Afinal, a massa é alienada mesmo. A massa é burra. A massa não enxerga. A massa vai na onda. A massa não tem senso crítico. A massa segue o que a elite fala. Mas se massa é o todo, a elite também é massa?
“Esse contraponto tende a reduzir o social a duas camadas, a ‘baixa’, formada pelo agregado amorfo de indivíduos anônimos – a ‘massa’ -, e a ‘alta’, formada por indivíduos que se distinguem dos demais pelas capacidades extraordinárias – a ‘elite’, os melhores e maiores” – disse Marilena Chaui.
Outra questão, que eu fico neurótica só de pensar, é a respeito de uma hipótese chamada de “Espiral do silêncio”, proposta por Elisabeth Noelle-Neumann. Ela defende a idéia de que os meios de comunicação, voltados para a tal da massa, seriam os grandes influenciadores da opinião da maioria. Até aí, nenhuma novidade. Porém, a minoria, por sentir medo de ser excluída pelos demais, tende a esconder a opinião. Ou seja, na verdade, pensando de forma bem crua, a opinião da minoria é da maioria. As grandes mudanças só não acontecem por um medo sem razão de existir. Tosco, né?
Tá, e o que isso tem a ver com o meu jobzinho? Tudo. Você é comunicador. Você tem uma puta responsabilidade perante a massa cinzenta da massa. Não some na massa. Some (+) na massa.
Sei lá, de repente bateu um medo de redatora. Não quis falar de campanha. Não quis puxar o saco de nenhum publicitário. Foi um artigo-desabafo. Insegura, neurótica e paranóica. Essa sou eu quando mexo com as letrinhas. Pronto, falei.
As ideias e opiniões expostas nos artigos são de responsabilidade exclusiva dos autores, e podem não refletir a opinião da Casa do galo.
Se você gostou deste artigo, assine o RSS feed da Casa do galo. Você também pode receber os artigos por e-mail.
Verônica Porsani, 24, é redatora publicitária e acha muito estranho ser chamada de redatora. Já passou por cliente, veículo e agência. Defende a propaganda bom senso - engraçadinha, eficaz, porém ética. Escreve para a Casa do galo quinzenalmente, às sextas-feiras.
veronicaporsani@gmail.com | http://porsani.blogspot.com
Últimos artigos escritos por veronica
- Vamos estar dando adeus ao telemarketing
- Propaganda e ética não combinam
- Às vezes inspiração não serve pra p$#%@ nenhuma
- Tira o dedo do meu texto
- Bodes de uma redatora mal paga
- Marketing engajado ou marketing do empurra?
veronica já escreveu 12
artigo(s) para a Casa do galo.
Leia as colunas anteriores do(a) veronica.
Este artigo tem as seguintes tags: alvo, comunicacao, elite, espiral, massa, neumann, noelle, publicidade, publicitario, publico, redator, silencio, target

Verônica Porsani, 24, é redatora publicitária e acha muito estranho ser chamada de redatora. Já passou por cliente, veículo e agência. Defende a propaganda bom senso - engraçadinha, eficaz, porém ética. Escreve para a Casa do galo quinzenalmente, às sextas-feiras. 









Sempre que leio massa lembro do "admirável mundo novo"
Entre espirais e agendamentos a que somos submetidos,
pseudo-elitizados ou massa amassada, podemos rumar
para caminhos sem volta. Isso dá um medo.
Pouco adiantará ficar consciente num mundo cego.
p.s.: sem puxasaquismo: a Porsani é violenta.
Deixe seu comentário!