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Sobre as vicissitudes da psicoterapia e afins

28 abril 2010 4 comentários escrito por tatiana

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O trabalho com pacientes na clínica da universidade tem me trazido importantes reflexões sobre a profissão de psicólogo e o processo de psicoterapia em si.

A primeira conclusão a que cheguei, logo no início: pouco se sabe da Psicologia até vivenciá-la na prática. Os conceitos aprendidos em sala de aula permitem um forte embasamento para tomar decisões e pensar de modo analítico, compreendendo as diversas variáveis envolvidas na vida de um paciente (nesse caso, independente da linha teórica).

Porém, nada substitui a emoção em lidar com a imprevisibilidade das pessoas que chegam até nós, seja por vontade própria, por encaminhamento ou qualquer outro motivo. Passando por essa fase inicial de contato com os pacientes, algo interessante aconteceu comigo e gostaria de compartilhar.

No ano passado, fui incumbida a atender uma querida senhorinha durante seis meses, que era o tempo de duração da disciplina de psicodiagnóstico. Foi uma vivência muito importante em meu histórico de graduação, já que era a primeira vez que poderia estabelecer um diálogo, não me prendendo apenas à aplicação de testes. Criamos um vínculo de bastante confiança e eu procurei atentar para as dores da alma que minha primeira paciente, aos poucos, ia trazendo. Em momento algum desprezei o embasamento teórico, mas me guiei prioritariamente por minha intuição e pelo desejo de proporcionar acolhimento a alguém.

Ao final do semestre, precisei encerrar o atendimento e encaminhar a amável senhora a outro estagiário, conforme as regras da clínica. É claro que existem exceções em que os pacientes permanecem sendo atendidos pelo mesmo aluno no semestre subseqüente, mas como o próprio nome “exceção” demonstra, isso acaba sendo um tanto incomum, já que o intuito é que os estudantes tenham a maior diversidade possível de experiências.

Burocracias à parte, foi com dor no coração que fechei o prontuário da paciente e segui para o meu próximo semestre, no qual vivenciaria o processo real de psicoterapia. A curiosidade sobre quem iria me suceder no atendimento daquela senhora se manteve dentro de mim até essa semana, quando sem querer, descobri que ela está em ótimas mãos, sendo acompanhada por um colega no qual confio plenamente. Mesmo que eu esteja atendendo novos casos, aquele não me saia da cabeça e a tranqüilidade em descobrir o paradeiro da “minha senhorinha” foi um grande presente!

O interessante nessa história foi que conversei com meu colega a respeito da paciente, procurando saber como ela estava e se houve possibilidade de melhora ao longo do percurso. A primeira variável que ele me trouxe foi a patologia eleita em supervisão para diagnosticá-la: “borderline” (em linhas gerais, uma pessoa que possui forte instabilidade de humor, oscilando entre dois extremos). Certamente isso não me surpreendeu, pois pensando mais friamente percebo que talvez a paciente realmente apresentasse tais características, mas o que me chamou atenção foi que, em nenhum momento, ao longo dos seis meses em que a atendi, pude pensar em diagnosticá-la com um nome de determinada patologia.

Como disse acima, o interesse pelas dores de sua alma foi aquilo que me moveu durante todo o processo: entender seu histórico, o porquê de suas queixas, a insatisfação consigo própria e as conseqüências de cada uma de suas escolhas. É muito provável que, se eu tivesse me prendido a um só nome desde o início, perderia muita, muita coisa, e o vínculo se manteria bem mais restrito.

Não reprovo o modo como meu colega a está atendendo no momento, pois acredito que o diagnóstico corretamente nomeado seja profundamente necessário. Porém, esse acontecimento serve como lição não apenas para mim como futura psicoterapeuta, mas para qualquer outra carreira em que se deseja atuar sendo fiel a certos valores: olhar primeiro o ser humano, depois aquilo que há em volta dele.

Atentar para as pessoas como nossos clientes supremos, insubstituíveis e capazes de serem muito mais do que um simples nome de produto, marca, doença ou estereótipo.

Ser sério, sempre. Patologizar, nunca.

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Tatiana Sobre as vicissitudes da psicoterapia e afins Tatiana Kielberman, 23, é futura psicóloga, mas possui os dois pés no mundo da escrita. Trabalha na área de Comunicação no Grupo Foco, unindo duas grandes paixões: Recursos Humanos e Jornalismo. Escreve para a Casa do galo quinzenalmente, às quintas-feiras.

tatikielber@yahoo.com.br | http://retratosdaalma.zip.net


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4 comentários »

  • uberVU - social comments disse:

    Social comments and analytics for this post…

    This post was mentioned on Twitter by casadogalo: Sobre as vicissitudes da psicoterapia e afins http://bit.ly/9OvzMp – artigo da @tatikielber…

  • Renateenho disse:

    Parbéns, ótimo texto!
    Ontem a Daniella Cicarelli tbm comentou sobre o esgio de Direito no tribunal de pequenas causas, foi bem interessante e muito parecido com o que vc falou.
    My recent post Eu tenho, voce não tem!

  • Taty (author) disse:

    Obrigada pelo apoio de sempre, querido!
    Um beijo!

  • Carina disse:

    Adorei o texto.
    Interessante como as pessoas as vezes olham para um paciente e só dizem coisas ruins sobre sua situação, não tentam ajudá-lo de forma eficaz, ficam olhando "em volta dele" e concluem que esse paciente poderá até ter uma morte fatal.
    Isso também acontece com a publicidade, por exemplo, a agência apresenta o que ela vai fazer e o cliente só fica "em volta dele" e só põe pontos negativos e acaba não aprovando a conta.
    Acho que é esse o pensamento que você conseguiu extrair da minha cabeça Taty. Parabéns pelo texto!

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