Às vezes inspiração não serve pra p$#%@ nenhuma
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Guernica – Pablo Picasso (1937)
Acorda inspirada.
Pega o sol das 7h45. Nunca consegue pegar o ônibus das 7h30, do motorista que responde “só alegria” quando lhe perguntam se está tudo bem. Mas ela odeia acordar cedo e acha um absurdo todo mundo entrar 8h ou 9h da manhã. Divaga sobre uma nova organização social. “Quem sabe se eu escrever um e-mail pro prefeito?”. Culpa do mundo virtual. Acredita que um e-mail resolve tudo.
Inspira-se.
Atravessa a rua com cuidado, não confia nos marronzinhos. Só em faróis. Luxo que ainda não chegou naquela parte do bairro. O ponto.
Inspira-se.
Duas senhoras reclamonas. Ri no interior, do mundo exterior. Entra no ônibus.
Inspira-se.
Paga a inflação dos R$ 0,50 da passagem. Sempre faz os cálculos. Ao final do ano, terá gasto R$ 120,00 a mais. “E se eu escrevesse um e-mail pro dono da empresa?”. Simula motins imaginários de passageiros. “E se todo mundo se revoltasse?”. Cai na real. Sente-se fazendo parte de um grande bolo fecal. Tira de dentro da bolsa – um buraco negro – O Filho Eterno.
Inspira-se.
Livro emprestado do namorado. Um namorado que hiperboliza quando fala de livros, cinema, música e Nintendo Wii. De fato, ela adorou. Mas ainda quer encarar o Anticristo. Não que ela seja anti Cristo, mas precisa de um cutucão nas ideologias aprendidas desde a infância. Da outra vez, teve gastrite moral quando leu seu primeiro Nietzsche.
Inspira-se.
Levanta. Gosta desse tipo de ônibus. O meio de comunicação entre o motorista e ela não é feito através de um botão. Sente-se mais sociável, mesmo sendo apenas através de um: “Você pode parar na Gazeta, por favor?”.
Inspira-se.
Lê a última página do livro na rua, andando. Não consegue esperar chegar ao trabalho. Aguarda o farol. Perde-se em devaneios. Avista uma moça vendendo pão regado a sol e gás carbônico.
Inspira-se.
Chega ao trabalho. Percebe que tudo em volta continua como no dia anterior. E era sempre assim. O dia posterior sempre tinha a cara do anterior. Um déjà vu eterno.
Esquece.
O mundo cheio de sons e imagens congela. Um caos paralisado. Um Guernica, de Picasso. Broxa cada vez mais o intelecto. Porém, sente a tranquilidade de não ter que pensar. Quem pensa sofre mais. Sente-se um Antonius, tentando, ao menos, ganhar uma partida de xadrez com a morte. Perde. Mata de vez a mãe das idéias. Transforma-se num zumbi dos próprios sonhos.
Na identidade póstuma, o registro: Aqui jaz a inspiração.
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Verônica Porsani, 24, é redatora publicitária e acha muito estranho ser chamada de redatora. Já passou por cliente, veículo e agência. Defende a propaganda bom senso - engraçadinha, eficaz, porém ética. Escreve para a Casa do galo quinzenalmente, às sextas-feiras.
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Verônica Porsani, 24, é redatora publicitária e acha muito estranho ser chamada de redatora. Já passou por cliente, veículo e agência. Defende a propaganda bom senso - engraçadinha, eficaz, porém ética. Escreve para a Casa do galo quinzenalmente, às sextas-feiras. 







Sensacional!
“Só alegria”. haha
Inspirou demais. O lance é intercalar com a expiração! HEHE
Literalmente, que viagem!
“Quem pensa sofre mais”. Isso é verdade.
Simplesmente PROFUNDO.
Compartilho de sua dor, e sim, os pensadores sofrem mais.
Acho que vou parar de pensar e ser igual ao motorista do ônibus: “SÓ ALEGRIA!”
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