Road movie nunca mais

A princípio, a proposta da União Européia de estimular a produção de automóveis economicamente viáveis e ecologicamente corretos parecia ser uma medida para regulamentar apenas a indústria automobilística. Porém, ao prever que os anúncios evitem mensagens que remetam ao prazer de dirigir, a velocidade no trânsito, bem como assinalem advertências do tipo: o consumo de gasolina e o volume de dióxido de carbono emitido por quilômetro, seu impacto ganhou outras proporções e pretende mesmo “reformular a sociedade mudando os hábitos de consumo e produção”.
O reflexo na arrecadação ― não apenas do setor ― deve ser assustador, pois o alvo (a princípio) são os veículos movidos à gasolina, parte significativa das frotas dos grandes centros urbanos.
As imposições aos comerciais remetem ao tamanho da responsabilidade da publicidade no modelo de vida atual. Por maior que seja a consciência dos danos, continuamos a consumir não somente por compulsão, mas principalmente por internalizar as necessidades veiculadas. Mesmo assim, obviamente, não concordo com as restrições, porém, reconheço que a informação precise circular mais e de forma explícita ― não apenas na propaganda.
O discurso ecologicamente correto ganha terreno a cada dia, tanto para criar diferenciais nos posicionamentos, quanto para permitir que os ávidos consumidores tenham um amparo na consciência. Embora selos e certificados não bastem, quando falta atitude.
A atuação pedagógica da propaganda é algo tão profundo, que fica complicado desdizer o que ela disse ― se é que o consumo de cigarros, álcool ou veículos esteja unicamente ligado ao seu poder de persuasão. A questão que submerge é: como adaptar a mensagem de mudar o consumo para não acabar com o mundo?
A imposição é oriunda do momento que vivemos e de todas as necessidades até aqui incorporadas. Daqui pra frente a publicidade vai lidar mais freqüentemente com a nova realidade do “consumidor moderado ou consciente”, principalmente para que ele exista de fato. E não bancarei a demagoga defendendo o consumo para manter meu emprego, afinal se faltar platéia não teremos espetáculo.
Então: não fume, não beba, não corra e, por favor, não morra!
As idéias e opiniões expostas nos artigos são de responsabilidade exclusiva dos autores, e podem não refletir a opinião da Casa do galo.
Se você gostou deste artigo, assine o RSS feed da Casa do galo. Você também pode receber os artigos por e-mail.
Iasnara Amorim, 29, Pré-publicitária e pseudo-contista. Abandonou a Veterinária por amor aos animais. Trocou Administração por Propaganda, numa passagem pelo Marketing quando foi esporada pela Publicidade. Atua na Promoção e Produção de Eventos, transformando figurinhas em metragens e cifrões. Vislumbra um futuro de Planner, por faltar insanidade criativa para a redação. Escreve para a Casa do galo quinzenalmente, às segundas-feiras.
iasnara@gmail.com | http://www.ossentidos.blogspot.com
Últimos artigos escritos por iasnara
- Música - Emoção que muda o tom da marca
- Ninguém se cruza por acaso
- Copywriters, o poder é de vocês!
- Twitter - Eu, você e everyone - E nossos encontros passaram a ser exercícios de síntese
- Homo.mídia ou homi.cida
- É, tem que ser agora!
Artigos relacionados
- Lafarge - Cimento
- Toyota Prado - Natureza
- Dentro da área é Penalty
- Vídeo colaborativo final do Gmail
- Sobre absorventes em propaganda
iasnara já escreveu 9
artigo(s) para a Casa do galo.
Leia as colunas anteriores do(a) iasnara.
Este artigo tem as seguintes tags: automóveis, consumidor, consumo, ecologia, filme, lei, meio ambiente, proibicao, regulamentacao, responsabilidade, restrições, social









quando o que esta em voga e o consumo exagerado temos sempre que elmbrar das atitudes escrotas que o ser humano vem tendo com seu planeta ao longo dos seculos então fica dificil nao advinharmos onde vai parar isso ….
Eis a questão: Como viver ecologicamente correto.
Olá!
Tbm fica difícil trabalhar quando a única e exclusiva culpa é da publicidade, veja exemplo dos cigarros no Brasil onde o próprio site do governo coloca o fumo como sendo conseqüência apenas da publicidade, mesmo não existindo mais propaganda nas mídias, exceto nos PDV .
É complicado se posicionar contra o consumismo e a poluição se os próprios governos aprovam a diminuição de emissão de poluentes apenas para 2050. O que a propaganda pode fazer se os manda-chuvas colocam o capitalismo e os lucros em primeiro lugar em detrimento do planeta e do ser humano? Não digo que é um trabalho impossível, tem que partir dos formadores de opimião, mas com o poder-público trabalhando contra, o trabalho fica muito mais complexo.
Gostei do texto Ias, mas sabes como o dilema da publicidade desaparece nestes casos? Quando um produto morre dando lugar a outro. Agora pode parecer surreal que os carros movidos a gazolina possam desaparecer, mas, num futuro quem sabe não tão longínquo o caso pode-se dar. Então aí, a publicidade vai fazer o quê? Promover as bonitas cores dos carros, que são movidos a gaz ou outro tipo de substância,o seu interior, a aparelhagem de som, o conforto que oferecem aos consumidores. A publicidade vai vender o produto da melhor forma que o sabe fazer porque apesar do OUTRO TER MORRIDO, continuam a existir uma centena de marcas de automóveis e todas elas querem que o consumidor escolha o seu magnifico carro amigo do ambiente.
A publicidade vende o que o mercado tem para oferecer. Se não há morangos, vende uvas. Sempre foi assim. Não é a publicidade que controla os consumidores, a sociedade é que os controla. A publicidade é apenas uma ferramente que a sociedade de consumo utiliza para vender os seus produtos.
Beijinhos
É a desconstrução reconstruindo a propaganda.
Haphelson – dizem que voltaremos ao primitivismo, e haverá no fim uma guerra de pau e pedra, você imagina isso?! Bjos.
Magela – por isso não enquadro nos eco-chatos. Sou consumista ao extremo, então antes de montar um discurso, preciso rever meu conceito. Obrigada, querido.
Bárbara - Olá! A culpa não é da publicidade, mas, o papel dela é relevante, principalmente se o desejo for de mudança. O governo e até mesmo a sociedade, sempre se esquiva. Obrigada, volta mais.
Alien – Claro que novas alternativas virão, mas, em algum momento precisaremos “frear”. Não quero pensar como os ianques que juram que na hora “H” farão uma reversão dos danos provocados, substituindo algumas peças - simplesmente. E os recursos insubstituíveis com a água, por exemplo? Pense, nisso. Obrigada.
Tiago – um amigo me disse ter medo de um pânico coletivo, será que estou me precipitando? Abraço.
É como vc mesma disse. Está mesmo ficando louca…
Afinal todos os nossos grandes filosofos, escritores, pensadores…
eram considerados assim.
Vizinho, só um poquinho da primeira opção. Beijo.
Memórias…
…de um Ford Landau, 1979, comprado em 1999, por impulso pra ser restaurado. Mesmo depois de anos sem ser produzido, nenhum nacional chegava perto dele em termos de espaço, conforto e silêncio ao rodar. Até hoje, não é raro achar nas ruas os últimos modelos azul-clássico, que parecem flutuar sobre o asfalto. Motor V8 de 5 litros, 200cv dentro de quase 2 toneladas de aço. Conforto, requinte e potência. Mas…
… fazia entre 3 e 5 quilômetros por litro. Com o trânsito dos dias de hoje, os que ainda rodam, chegam a consumir mais de 1 litro por quilômetro. Peso, motorização e tecnologia dos anos 50, 60 e 70, época em que uma meia dúzia de cautelosos, visionários como Konrad Lorenz, apontavam os erros capitais do homem moderno. E ele avisava: “O homem possui um número imenso e manifesto de fontes independentes de impulsos, muitas delas adquiridas durante a filogênese: os “instintos”(…)”.
Inaceitável nos dias de hoje, um beberrão sem “senso” ecológico como o Landau, naqueles dias, era sinônimo de luxo e poder, para alegria dos publicitários e do fabricante, que nem faziam tantos esforços para construir essa imagem. Talvez também pela potência, talvez pelo tamanho, talvez pela aparência de robustez, o fato é que era objeto de desejo de políticos, juízes, empresários e executivos bem sucedidos. Se havia imposição, era a da própria vaidade humana (e se é que há vaidade em algum outro tipo de vida que não a humana). E os bem sucedidos exibiam suas conquistas, entre outras coisas, através do aço e da gasolina. Era a recompensa pelo trabalho bem feito. Os tempos mudaram, a tecnologia evoluiu, o planeta foi degradado, mas a condição e a ética humanas ainda sofrem os mesmos
“impulsos” infringidos há milhares e milhares de anos. A consciência ainda é primitiva e instintiva. Reformular a sociedade mudando os hábitos de consumo e produção não é tão fácil quanto fazer cócegas na vaidade humana para impulsionar a aquisição, mas a responsabilidade da publicidade no modelo de vida atual é, sim, gigantesca. Ainda, parafraseando Lorens em “Civilização e Pecado”, “Em todos os seres vivos, (…) obtém-se resultados graças a dois tipos de estímulo de efeitos opostos. Um intervém no aprendizado positivo (reinforcement), que vem reforçar um comportamento anterior; o outro, no aprendizado negativo (deconditioning) que visa a enfraquecer, ou seja, inibir, esse comportamento. No homem, o primeiro tipo de estímulo está ligado a um sentimento de prazer, o segundo aum sentimento de desagrado (noções de recompensa e castigo)”. Ainda penso que somos primitivos e, por isso, talvez só mudemos o modelo de vida atual dessa forma: com recompensa e castigo. Dois estímulos ao invés de um. Com cérebros reagindo em função do fracasso e do sucesso de cada atitude deliberada. Quanto ao consumo, difícil mesmo vai ser manter a platéia entretida enquanto o espetáculo estiver dando lições de hábitos de compra e produção conscientes. Em outras palavras, sobrou pra vocês, publicitários. Parabés, Iasnara, pelo insight ético que poucos profissionais dão valor.
Ias, eu falava da publicidade como uma ferramenta que vende o que a sociedade lhe pede. Sempre foi assim desde que o homem começou a desenhar nas cavernas. Temos de pensar que o que está mal, não é, nem nunca foi causado pela publicidade. Se reparares existem muitas campanhas institucionais para alertar o público sobre como poupar os recursos deste planeta. Mas não te iludas,não são campanhas criadas por publicitários com uma consciência ambiental de louvar, são campanhas que geralmente são “encomendadas” por determinadas organizações como por exemplo a greenpeace, entre outras. A publicidade é uma ferramenta. Falas da àgua. Há agora uma campanha 5 estrelas na MTV que abrange temas como: poupar àgua, energia, etc.
Isto tudo para te dizer o quê? O que já te disse, a publicidade é uma ferramenta. Se as pessoas a souberem usar, esta pode ajudar a mudar mentalidades. Mas não te esqueças daquele lema, que eu uso muitas vezes, para me lembrar que o poder da publicidade não é assim tão grande quando alguns querem fazer crer: se tu não gostas de sumo de laranja, não existe anúncio no mundo, por melhor que seja, que faça com que tu passes a consumir sumo de laranja. É uma missão impossível.
Para terminar, não acho justo colocar nas mãos dos publicitários uma responsabilidade que deve ser da sociedade no geral.
Beijinhos
Alien, concordo com você! A publicidade não pode ser encarada como a salvadora da pátria, muito menos da humanidade, ela existe como vc disse, como ferramente para os produtos q existem. Por tanto ela apenas funcionará ecologicamente quando um produto for ecológico.
Também por mais q façamos propaganda institucional, o sistema está errado (consumismo em exagero) e a sociedade e o próprio governo não mudarão apenas por que é moralmente correto. Como diz um ditado popular: “a gente aprende a nadar quando a água bate na bunda” e ainda não bateu.
Infelizmente ainda não surgiu a necessidade de se mudar as coisas e por isso não existe o desejo de mudança onde a publicidade atua.
Marcelo querido, adorei teu comentário. Lúcido e observador.
Era justimente sobre essa questão que me referia, as mudanças,
as consequencias e o que cada um pode fazer - de verdade.
A propaganda não é uma varinha mágica, mas, há quem acredite ser.
Te espero mais vezes por aqui. Obrigada.
Alien e Barbara, concordo e entendo o que dizem.
Sabemos que o momento ainda não é de pânico, que a
culpa é do sistema e nossa (enquanto parte do meio)
antes de tudo.
O que tentei trazer, pensando nas medidas cada vez mais
delimitadoras em relação à propaganda e suas abordagens
– atribuindo sim uma grande parcela de responsabilidade
a ela, é, como diremos ao consumidor (futuramente):
“compre, mas, não tanto”, “compre só um pouquinho”,
ou “compre menos”… e coisas do tipo.
Como moderar nosso discurso, sempre habituado a mensagens
matadoras e convertê-lo para um diálogo cúmplice e transparente,
em um cenário não tão favorável ao consumo desenfreado.
Seja como for, haverá produção, necessidade de venda e consumo,
o mundo precisa girar. Só acredito que mais cedo ou mais tarde
precisaremos lidar com isso, avaliar o nosso papel como formadores
de opinião, não apenas no retorno do investimento publicitário, mas,
na manutenção da vida. Talvez eu tenha me precipitado, imaginado
muito anos na frente, porém eu pergunto, pq não pensar no que vem?
Minha querida Ias, lá vou ter de discordar mais uma vez. Não tarda nada temos um divórcio.:)
Li a tua resposta, mas não posso deixar passar em branco algo com o qual não concordo e estando no meio há 10 anos não me considero nem nunca me considerei : ” avaliar o nosso papel como formadores
de opinião” e passo a explicar. Nós não formamos opiniões, nós ajudamos a vender produtos o que é completamente diferente. Nós somos prostitutas. Temos um cliente que nos dá um Briefing e nos paga para que as vendas do seu produto aumentem. E para isso, nós não necessitamos de mudar mentalidades, necessitamos de ideias, de conceitos que resultem. Nem que seja colocar uma loira a beber um sumo fazendo o pino em cima de um carro. Se pegar, o consumo aumenta, somos pagos, bem pagos, trabalho feito. Não necessitámos de muito para aumentar as vendas e porquê? Porque no Briefing já sabiamos a que Target nos iriamos atirar.
Formadores de opiniões é algo complicado neste meio. É algo que podes tentar fazer quando tens nas mãos uma campanha institucional sobre uma qualquer causa ecologica, mas não te esqueças que essas são raras, na vida de um publicitário este lida a maior parte do tempo com produtos aonde essa vertente não se aplica.
Uma agência de publicidade não vai arriscar perder uma conta como a Mercedes, recusando fazer o que o cliente pede porque pretende criar um anúncio que passe uma mensagem. Ora, isto não faz sentido. A mensagem que o cliente quer fazer passar é a de que o seu carro é XPTO, não uma outra qualquer ” formadora de opinião” que a agência pretende. Entendes o que quero dizer?
Vivemos numa sociedade de consumo e a publicidade como disse é uma ferramenta dessa sociedade de consumo. A única janela que a publicidade tem para fazer passar mensagens é quando não está dependente de um cliente mas sim aliada a uma causa, aí sim! Pode fazer passar uma mensagem e tentar mudar mentalidades. Mas não tenhamos ilusões. A tua vida como publicitária, a minha vida, não passa por fazermos anúncios deste tipo diariamente ou mensalmente ou quem sabe anualmente. Vamos sim lidar com os produtos que são consumidos pela sociedade e neste campo, não há muita margem para manobra, infelizmente. Como disse no outro comentário, não acho justo colocar nas mãos dos publicitários uma responsabilidade que deve ser da sociedade no geral.Se todos tivermos uma consciência global mais apurada, pode ser que as coisas comecem a mudar. E aí sim, a nossa ferramente pode ajudar.
Beijinhos
Amada, divórcio nunca! Acho inclusive que a riqueza da nossa relação
mora especialmente na diversidade de experiências e não nas preferências comuns.
Te entendo, sim. Assim como minha veia eco-chata lateja inadvertidamente.
Então torçamos por “uma consciência global mais apurada”.
A casa é sua, e sua opinião muito importante pra mim, você sabe.
Um beijo.
Como dizem os americanos, a minha resposta resume-se a um: It works both ways darling
Beijinhos e ainda bem que não pediste os papéis do divórcio;)
alieniloveyou.
A solução nos países sérios foi restringir o uso do automóvel, estimular meios limpos de transporte e investir no transporte em massa. Porque no Brasil deve ser diferente!
É mesmo vergonhso ver iniciativas como aquela adotada em SP, e recentemente no DF, que restringe a circulação de veículos de carga quando na verdade o problema é o carro de passeio! Quem será que paga a conta?
O dia d’O Grande Colapso está próximo:
http://www.correiobraziliense.com.br/html/sessao_13/2008/07/29/noticia_interna,id_sessao=13&id_noticia=22017/noticia_interna.shtml
Júlio, realmente é urgente e necessário buscar uma alternativa,
tentar melhorar a qualidade de vida é atitude inadiável.
Uma re-educação que não se limita ao que é comunicado ou
comercializado apenas.
Apesar de não concordar, as retaliações e regulamentações servem
como instrumento provocador do diálogo a respeito dos problemas.
A verdade é uma, como está não pode continuar.
Abraço!
Deixe seu comentário!
Receba os artigos por e-mail
O título deste artigo veio de uma música do Arnaldo Antunes que se chama “Na massa”. Abri meu livrinho sujo sobre sociologia na publicidade e lá estava a palavra. Escutei esses dias alguém falando de um tal público-alvo que abrange todo mundo. Existe isso? O que seria a tal da massa? Imagino algo como seres [...]
Na madrugada de terça para quarta (5/11) o mundo conheceu o novo presidente dos Estados Unidos da América, o até então senador Barack Husein Obama. Obama é hoje a nova síntese do sonho americano, negro, líder comunitário, filho de imigrante, eleito para o cargo mais importante daquele país. Contra todos os prognósticos iniciais, a campanha [...]
Eu quero descer na próxima parada, antes da bisonha estação da reforma ortográfica. Onde já se viu acabarem com o acento agudo no pára?
Pára com acento agudo é uma das palavras mais charmosas da língua portuguesa.
A justificativa para a mudança é que o contexto indica o sentido que a palavra quer passar. Acontece que o [...]
Ofertas Submarino
Compre livros
Artigos recentes
Mais comentados
Mais lidos