Quer conhecer minha coleção de selos?

Desde que me entendo por aspirante a publicitário sempre soube que para uma peça publicitária dar certo, devemos orientar o cliente a comprar, provar, usar, beber e por ai vai. Nós, publicitários, temos uma relação quase carnal com os verbos no imperativo.
Não que ele, o imperativo, seja culpado de algo. Ele foi, é e ainda será parte da construção do discurso publicitário, pois é certo, que o imperativo tem funcionado. Caso contrário não estaria por aqui até hoje. Mas me pergunto se não há outro caminho.
Steven Pinker, professor de Harvard, cientista cognitivo, psicólogo evolucionista e um estudioso dos processos de fala - em seu livro mais recente The Stuff of Thought (”O Material do Pensamento”), ainda não publicado no Brasil, analisa o papel da polidez nas relações verbalizada das pessoas.
Pinker relata que, ao contrário do que pensam grande parte dos pesquisadores da área, as pessoas não falam de forma transparente para que o ouvinte entenda de forma inequívoca o que o falante quis dizer. Pelo contrário, nós, seres humanos, falamos – em uma livre interpretação – pelos múltiplos sentidos que a nossa fala pode gerar no ouvinte.
Pode parecer conversa de cientista maluco, mas o interessante na visão de Pinker é que ele demonstra como essa forma de fala pode ser benéfica tanto para o falante como para o ouvinte. A fala indireta dá ao falante a liberdade de dizer a qualquer momento, que não foi bem isso que ele quis dizer e também dá ao ouvinte o direito de fingir não ter entendido. Porém a vantagem mais destacada dessas estratégias de fala é a preservação do status social (aqui não relacionado a fatores econômicos e sim às relações interpessoais) permitindo que mesmo uma proposta indecente não venha a gerar um desentendimento entre o falante e o ouvinte, preservando o canal de comunicação aberto.
Se você, depois de um cinema, convidar uma garota para conhecer sua coleção de selos, ao mesmo tempo em que convida ela para algo a mais, deixa uma margem de segurança para caso ela se sinta ofendida com o convite. Nesse caso, você poderá sempre alegar que realmente seu interesse era só mostrar os selos a ela. Parece um exemplo bobo em tempos de dança do creu, até bem inocente, mas demonstra de forma simples como o discurso indireto serve bem ao propósito do falante.
Percebo que, para o redator publicitário essa visão de como se comunicar pode ser bem interessante, pois temos visto crescer não só no Brasil, mas em diversos países, um grande número de movimentos anti-propaganda, muitas vezes gerado pela forma agressiva e ostensiva que a publicidade adota para comunicar-se com seus ouvintes.
Ao observarmos o que vem se tornando a propaganda na internet hoje, podemos identificar maior relevância ainda nessa teoria. Banners, pop-ups, links patrocinados, todas as formas e fórmulas da velha propaganda tem se mostrado pouco efetivas na comercialização de marcas na web. Estamos vivendo a era do viral, do colaborativo, de relações muito mais naturais e interpessoais.
A revista de negócios Business 2.0 desse mês traz uma matéria que trata de comunicadores instantâneos como ferramentas de negócio. Nela Erik Asarian, empresário americano, relata que a adoção dessas ferramentas para a realização de vendas aumentou em 12 milhões de dólares anuais o faturamento de sua empresa. Asarian ainda dá dicas de como utilizar os comunicadores, evitando expressões “padronizadas” de venda e partindo para uma comunicação mais informal e cortês.
Lendo isso fiquei imaginando se Pinker não está certo e estamos deixando passar algo valioso para a propaganda. Quem sabe, não devamos começar a mostrar mais o produto e deixar que o cliente decida se irá levá-lo ou não, ao invés de tentar mandar no seu desejo. Quem sabe não estamos precisando de mais polidez na comunicação publicitária.
É claro que, em se fazendo dessa maneira não estaremos abdicando de tentar vender nosso produto e serviços, pois como relata o livro, polidez, cortesia e discurso indireto são formas claras de manipulação da linguagem e uma tentativa do falante de manipular a percepção do ouvinte – consumidor.
Mas pelo menos é uma forma diferente e mais educada de fazê-lo. Se da certo na cantada, pode ser que na propaganda também funcione. O jeito de descobrir é tentando. Eu já comecei.
As idéias e opiniões expostas nos artigos são de responsabilidade exclusiva dos autores, e podem não refletir a opinião da Casa do galo.
Se você gostou deste artigo, assine o RSS feed da Casa do galo. Você também pode receber os artigos por e-mail.
Nauro Rezende Jr, 31, é publicitário e Diretor de Criação e Planejamento da ID Comunicação. Apaixonado pela profissão e suas ciências. Um idealista.
Escreve quinzenalmente para a Casa do galo, às quintas-feiras.
nauro@idmarketing.com.br | http://parapensarpropaganda.blogspot.com
Últimos artigos escritos por nauro
- Publicidade - Arte ou Ciência?
- Idéias bizarras
- Os yankees estão chegando - as estrelas de Hollywood nas propagandas brasileiras
- O que mudou na publicidade e no marketing?
- Para ser digital é preciso viver o digital
- Auto-regulamentação. É como prender o cachorro com lingüiça?
nauro já escreveu 8
artigo(s) para a Casa do galo.
Leia as colunas anteriores do(a) nauro.
Este artigo tem as seguintes tags: business, imperativo, inovação, marketing, negocios, publicidade, verbo









Nauro, tesão de artigo.
A matéria da business também é muito interessante!
To be a successful “closer,” a merchant first has to learn how to use live chat to create trust. Instead of pinging visitors with a standard greeting like “How may I help you?” - which many potential customers correctly interpret as nothing more than a sales come-on - Galper suggests a subtler alternative: “Hi, my name is Ari, sorry to interrupt… just wanted to make sure everything is making sense so far…” (Another basic IM sales rule: Never use periods; opt instead for the more conversational ellipsis.)
post muito interessante, parabéns.
A dialética é mesmo poderosa, entretanto é preciso reescrever nossa fala de uma maneira ainda mais cúmplice. Dá pra sentir que as emoções imperialistas estão com os dias contados.
p.s.: o artigo vai para coletânea “os melhores”, que ver os outros, Galo?
Pô, Chicken
Vc manda bem no English.
Nauro
Parabéns pelo excelente post e sua redação.
Estou a estruturar um blog coletivo (www.tanoblog.com), com temas livres.
Tomo a liberdade de informar que, em breve, farei convite para você participar do projeto.
Ou, ao menos, colaborar com críticas e sugestões ao espaço.
Depois darei uma emeilada para você.
Abração para o Diego.
Olá Dino,
obrigado pelo feedback e qualquer coisa é só chamar.
Um abraço e até.
Nauro é sempre um prazer ler teus textos pela concisão, clareza e senso de humor. É isto aí conotação não é sinônimo de denotação, pelo contrário, enquanto a contação é erótica a denotação é obscena. Vale a pena lembrar Barthes: “O lugar mais erótico de um corpo não é lá onde o vestuário se entreabre? [...]é a intermitência, como o disse muito bem a psicanálise, que é erótica: a da pele que cintila entre duas peças [...] a encenação de um aparecim,ento-desaparecimento” Penso que é o que vc quer dizer com o teu texto. Parabéns
Deixe seu comentário!
Receba os artigos por e-mail
Métricas é sempre um assunto polêmico. Sai na frente quem conseguem medir quantas pessoas viram determinada campanha, quando viram e quem são essas pessoas.
Na web a coisa fica mais fácil. Não digo que seja simples, mas a facilidade é bem maior que, por exemplo, um outdoor ou qualquer outra mídia exterior.
Usualmente utiliza-se como base de [...]
O Fantástico Mundo Animal da Propaganda (só pra parodiar o belo artigo da semana passada do Ricardo Chermont) tem espécies mais marcantes do que o Tony, The Tiger ou cachorro da Cofap. Não, eu não estou falando de donos de agências burros, clientes topeiras ou diretores de arte pavões. Estes são mais comuns.
O que motivou [...]
Não é de hoje que o tema gera polêmica, a publicidade é ou não arte? Uns pensam que sim, outros têm certeza que não. Eu fico com os que pensam que não. Isso não quer dizer que não valorize a profissão ou o trabalho que nela desenvolvemos. Penso só que arte é outra coisa.
Como se [...]
Livros
Artigos recentes
Mais comentados
Mais lidos