Propaganda e ética não combinam
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Galo, tô em crise.
Crise de consciência por fazer propaganda.
O ego, tadinho, tá dividido entre meu super (não tão super) ego e meu Id impulsivo. Tá lá, tentando, a qualquer custo, organizar a bizarra cabeça dessa pequena criativa que vos fala.
Nem Freud explica, mas o superego publicitário costuma dar mais trabalho. Será característica da espécie?
Bom… mas deixa eu te contar…
Esses dias, por exemplo, senti um anúncio me incomodando. Sabe a consciência batendo? Lembrei das minhas aulas na PUC. Das minhas convicções. Da minha vontade de fazer diferente. Me deu um frio na barriga. Caí na realidade e percebi que era mais uma. Mais uma que só seguia o fluxo e procurava ter uma ideia engraçadinha.
Mas voltando ao anúncio…
Sabia que o Conar bateria na nossa porta. Mas a sala de criação estava animada. Todo mundo riu. O atendimento riu. O dono riu. O planejamento riu. Até a Dona Fátima, quando serviu o café, espiou e riu.
Algo me dizia que aquilo não devia sair daquele Mac. Tentei comentar, mas ninguém me deu ouvidos. Era engraçado demais. Tinha tudo pra dar certo.
Não deu.
Sabe Galo, às vezes eu penso que o difícil não é ter ideia. Ideia, qualquer um tem.
Agora, ideia saudável, é mais complicado. É desgastante fazer uma reflexão crítica. Matar a ideia por causa de um receio social? Ah, ninguém tá muito afim disso.
Pode ser neurose minha. De repente tô pegando pesado demais. Mas eu ainda insisto nessa coisa toda de respeito social.
Mas sácomoé, na euforia criativa, ás vezes, a gente esquece de algumas pessoas. Só lembramos quando ligam reclamando, escrevem suas opiniões, acionam o Conar e, claro, quando dizem que não vão mais consumir o produto.
Mas aí Galo, aí é tarde demais.
Propaganda e ética não combinam. Já ouvi muita gente falando isso. E é nessa hora que aquela sua receita médica do Prozac me ajuda.
Só ela.
Tô em crise.
Não sei por que resolvi fazer tudo isso. Não sei por que resolvi escrever coisas nas quais não convém com minha consciência social.
Eu sei Galo. Eu sei. Criar desse jeito é escolha minha. Apenas. É uma escolha. Entre o saudável e o doente.
A sociedade já vive tão cercada de ideologias! É certo, eu, uma comunicadora social, incentivar ainda mais tudo isso? COMUNICADORA SOCIAL, quem diria! Olha o peso disso!
Eu só amo o que eu faço, quando o que eu faço não agride ninguém.
A tal comunicação social é uma puta responsabilidade. A gente impacta a sociedade. Não importa se é em pequena ou larga escala. Mas alguma coisa lá fica.
Galo, não é tão simples minha crise. É um conjunto de frustrações. Um sentimento de impotência diante do trânsito, da corrupção, da falta de respeito, do poder de poucos, da igreja, dos pedófilos, dos estupradores, dos preconceituosos, do sistema, da violência, da ecologia, da política, das guerras, das doenças, e, agora, da propaganda – para completar ainda mais minha angústia.
O que me ajuda é pensar que não sou só eu que frequento esse divã.
Ainda tenho minhas referências criativas. Meus modelos de comunicadores sociais. Gente que entende dessa responsabilidade.
De repente me bateu uma nostalgia publicitária. Saudade da propaganda gente boa, parceira, amiga de todos, sem preconceito.
Bons tempos eram aqueles em que as pessoas não dividiam só salgadinho…
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Verônica Porsani, 24, é redatora publicitária e acha muito estranho ser chamada de redatora. Já passou por cliente, veículo e agência. Defende a propaganda bom senso - engraçadinha, eficaz, porém ética. Escreve para a Casa do galo quinzenalmente, às sextas-feiras.
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Verônica Porsani, 24, é redatora publicitária e acha muito estranho ser chamada de redatora. Já passou por cliente, veículo e agência. Defende a propaganda bom senso - engraçadinha, eficaz, porém ética. Escreve para a Casa do galo quinzenalmente, às sextas-feiras. 







É… acho que todo publicitário passa por momentos de crise como os seus. Ansiamos pela irreverência e pela inovação, e um pouco mais para a frente nos pegamos sendo vetados e vetando nossas próprias idéias.
Brindemos com salgadinho para comemorar esta infeliz realidade.
Esse artigo seria mais apropriado se fosse escrito em primeira pessoa do plural. rs
Uma realidade compartilhada. É a sociabilidade dos comunicólogos até na crise.
legal fazer psicoterapia: vamos para a parada distribuir doritos!
já tou preparando as bandeiras. tem da casa do galo tbem.
(falando sério: q ritmo delicioso de texto)
Verônica,
Vê se esse comercial te anima um pouco.
http://www.youtube.com/watch?v=PjIRZvpT4b4
Eu tentei, cocoricó!
Propaganda e ética combinam sim. Tudo isso o que você falou são questões pessoais e subjetivas, e isso não significa que não haja ética na propaganda. Os conceitos de humor, preconceito e ética, nesse caso, são individuais. Se for assim, em nenhuma profissão ou classe há ética, pois sempre tem gente contra o aborto – mesmo o autorizado pela justiça – , sempre há advogados pra defender bandidos, playoyzinhos de classe média que fumam maconha na festa da faculdade e fazem paseatada pela paz, jornalistas tendenciosos etc. Ética é um conceito muito relativo. É ético anunciar cerveja em um horário que crianças vejam, mas sem usar preconceito? Como eu disse, a ética é um conceito, além de relativo, que flutua ao sabor das marés…
[...] · Auto-Ajuda e Desenvolvimento Humano · Ciências Biológicas e Naturais … fique por dentro clique aqui. Fonte: [...]
Como publicitária em formação compreendo sua angústia. Desde o início do curso os mestres alertam para a RESPONSABILIDADE ÉTICA SÓCIOAMBIENTAL que temos que ter como futuros COMUNICADORES SOCIAIS e FORMADORES DE OPINIÃO. E nossa responsabilidade parece ainda maior quando percebemos que a nossa responsabilidade ética independe da de nossos clientes. Tudo seria fácil se encontrássemos clientes que compartilhassem os mesmos pensamentos e atitudes éticas. O problema é que sabemos que nem sempre é assim em ambos os lados e em todas as profissões. Temos que ter em mente que a responsabilidade ética é responsabilidade de todos nós e de cada um de nós individualmente. Com FILHA DA PUC penso que compreendo ainda melhor seu anseio.
Atire o primeiro job quem nunca teve uma crise dessas.
A ética é algo relativo msm e que ronda a cabeça de todos os seres humanos. Porém, a diferença é que a ética dos publicitários é extremamente exposta! Uma coisa é termos conceitos que guardamos para nós, outra coisa é tornar algo público que mtas vezes vai de encontro ao que realmente pensamos…
Influenciamos pessoas, e essa é uma responsabilidade imensa.
Mas acredito que não deixar nossa ética e valores de lado é a chave para saber que pelo menos fizemos a nossa parte, de um jeito correto.
O que vier depois…foge do nosso controle.
Obrigada pelos comentários;)
PS ao Juliano: cara, ganhei o dia assistindo esse comercial. É isso que eu chamo de propaganda de qualidade hahahahahahaha
Hahahaha!
Eu lembro desse do pirocóptero!!
Que texto magnifico, assumir o que faz, é um começo para sair de crises.
Estou adorando o site Galo!
Sucesso!
Ô Guilhermão, obrigado.
Agora que aprendeu o caminho volte sempre!
abraço
Obrigadão Guilherme! Volte
Gostaria muito de me compadecer de sua dor, Verônica, mas como boa aspirante a publicitária não pude evitar o pensamento: ‘Que delícia de crise! Espero ainda pode me queixar de uma dessas…’ hehehe..
Ótima a do pirocóptero!
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