Peppermint Candy – Vida e arte contemporânea
Dentre todos os possíveis atos de rebeldia da sociedade contemporânea, a maioria advém da repressão imposta pelos governos ou da pressão da mídia, que cobra sempre uma atitude de seu público. O tempo todo, eles nos dizem o que não devemos ser ou quem e como devemos ser. Para ajudar, qualquer um à sua volta possui uma receita infalível contra o stress e o mau-olhado e, sinto lhe decepcionar, você também tem lá os ‘melhores conselhos que uma pessoa pode dar’.
O produto natural destas forças externas, para aqueles que a combatem, obviamente, são fontes inesgotáveis de criatividade, coragem ou simplesmente apatia. A arte é apenas uma dentre muitas possibilidades de escape desta criatividade. Exemplo disso é uma exposição que inclui 23 jovens artistas sul-coreanos que abordam vários aspectos relacionados à cultura, política e sociedade através de pinturas, esculturas, instalações, fotografias e vídeos. A Peppermint Candy está sendo divulgada pelo Museu Nacional de Arte Contemporânea da Coréia do Sul e esteve exposta no Museu Nacional de Belas Artes de Buenos Aires até 6 de julho, onde tive a sorte de descobri-la sem querer.
Estes artistas contemporâneos expõem seus olhares de crítica com trabalhos que não só encantam o público, mas que os deixa pensativos, já que exploram o dilema de regressar ao seu passado ou de se lançar às ofertas do mundo moderno.
Para um país de bases tradicionais, imaginem a repercussão que a mídia exerceu com a chegada da democracia e com progresso social e tecnológico em apenas 20 anos. A exposição se baseia em 3 eixos, que são, na verdade, espaços de tempo: Feito na Coréia analisa a evolução do autoritarismo até a democracia, com fotos e vídeos sobre tortura a mando dos governantes e gangues de rua; A nova cidade fantasma explora os problemas de Seul depois de se tornar uma grande cidade; Paraíso Plástico aborda a cultura visual dos anos 90 até os dias de hoje, aqui se pode ver muitas influências da Pop Art e a influência norte-americana com a cultura do enlatado.
O resultado são esculturas como estes heróis que misturam entidades religiosas, como Buda, aos samurais ou monstros robóticos dos desenhos futuristas.
Ao fundo Kyang-Tack HONG, em ‘Funkchestra’, expõe quadros com a junção de todos os ritmos musicais, letras de canções pop, música clássica e mensagens religiosas, junção que é símbolo da civilização moderna. A peça é uma experiência de respeito e veneração à maior religião da atualidade, o consumo.
June-Bum PARK criou o vídeo ‘O Anúncio’, um trabalho que aborda o processo de criação de um entorno urbano, colocando e tirando letreiros publicitários. A obra relata o que acontece na Coréia do Sul, onde os letreiros convivem de maneira confusa e desordenada, em centros comerciais esmagados dentro de pequenos espaços, produto do drástico crescimento da urbanização.
Esta obra é a que mais chama a minha atenção, pois, não é apenas uma crítica ao modo de vida do sul-coreano, mas sim um estado crônico da maioria das metrópoles do mundo, devido a forte influência do capitalismo sobre o modo de vida do ser humano. Sem dúvida, um novo conceito de cidade fantasma.
Dongwook LEE é outro artista que aborda o eixo Paraíso Plástico, seus personagens nus manifestam uma crua realidade da cultura dos enlatados. Os personagens aparecem em espaços fechados como latas, potes de vidro ou até em cartelas de remédios. As feições são de sofrimento e desespero. O artista relaciona suas obras à massificação que a sociedade faz aos gostos e escolhas, e usa o corpo humano como analogia para a situação inerte de desumanização.
Para mim, o choque foi pensar em como somos reféns da mídia. Não que eu não tivesse pensado nisso antes, mas, esta reflexão em especial levou a um raciocínio novo até então: o do desespero de saber que somos reféns, que trabalhamos para ela, que a tememos e a desejamos, mas, que ainda assim, quando queremos fugir não se sabe como, tampouco, por onde começar.
De tão enraizado, como disse o artista, o consumismo se tornou uma religião. Acredito que como os ocidentais sofreram uma transição mais amena para a cultura tecnológica, não conseguem dimensionar o tamanho dos impactos causados sobre seu estilo de vida. São mostras como essa que fariam as pessoas entenderem o poder que a mídia exerce sobre a sociedade contemporânea, tão forte que chega a mudar seus valores culturais.
Mas no fim, acredito que não adianta apenas culpar o sistema, pois, esse processo se tornou cíclico e cada vez mais as culturas exigem uma beleza artificial de seu povo. A mídia deixou de ser a única responsável pela crise, e se parar de suprir essa necessidade geral é que se instaurará a crise, porque no fundo, ninguém sabe realmente o que quer ser.
Para assistir…
O filme Peppermint Candy cobre duas décadas de história da Coréia do Sul com a sua contemplativa história de inocência perdida, refletindo o tumulto social, político e econômico de uma árdua subida para o alcance da democracia. Ainda não tive a oportunidade de assistir, mas me pareceu muito interessante. Os artistas da exposição cresceram na mesma época que os personagens do filme, daí o nome da exposição.
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Bruna Rocha, 24, é atendimento da LongPlay360°. Tem um passado meio obscuro na área comercial, onde aprendeu as maravilhas do excel. Seu sonho reprimido é ser redatora, mas nunca tentou fazer um portfólio. Escreve para a Casa do Galo às quintas-feiras.
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Bruna Rocha, 24, é atendimento da LongPlay360°. Tem um passado meio obscuro na área comercial, onde aprendeu as maravilhas do excel. Seu sonho reprimido é ser redatora, mas nunca tentou fazer um portfólio. Escreve para a Casa do Galo às quintas-feiras. 







Esse vídeo é muito bacana.
A coisa sempre foi muito feia nas Coréias, por isso esse “grito” dos artistas é algo impressionante!
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Abraços
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