Todo o papo de humanização das marcas me fez pensar em uma coisa um tanto óbvia. Em um mesmo dia, duas pessoas representando marcas de editoras diferentes tentaram me vender revistas na rua.
A primeira me parou e perguntou: moço, você tem cartão de crédito? Ahn, tenho. Então vem cá que você vai ganhar uma revista. Ahn, tá.
Abordagem estranhíssima, bem similar a essas que a gente percebe nos semáforos, mas tudo bem, não fosse a enganação. A editora não ia me dar uma revista e sim um desconto na assinatura. Quando recusei, me deram um exemplar e, olha que chique, eu pude escolher entre 3 publicações. Todas semanais, de 14 meses atrás.
A segunda me abriu um sorriso e pediu por favor para me mostrar uma revista. Parei e ouvi, claro. Toda atenciosa, me contou sobre a revista e o projeto social que estava por trás com toda a educação. Comprei e ainda ganhei um ‘Muito obrigado, Rafael. Tenha um bom dia’.
A questão é: pessoas são pessoas.
Você pode impôr ao caixa do McDonald’s que seja simpático, atencioso e educado com todos os clientes. Se ele estiver de mau humor, magoado ou simplesmente for um chato, basta o gerente virar a cara para ele fechar a própria.
E todo o planejamento, aquela estruturação que parece infalível e que tinha tudo para bombar pode morrer com um simples gesto de má vontade da pessoa que está lá na ponta do processo. A pessoa que vende, comunica e interage com outras pessoas.
Tudo pelo simples fato de pessoas não serem previsíveis e toda e qualquer ação de comunicação ser uma espécie de tiro de escuro com as arestas aparadas, otimizado, para dar certo. E é aí que está a graça da nossa profissão.
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Rafael Amaral, 21, é planner na Super Produções e blogueiro do Estagiaridade. Escreve para a Casa do galo às terças-feiras.
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Há algum tempo, em conversas com pesquisadores e artistas, venho defendendo a idéia de que vivemos a nova era das trevas, uma segunda edição da idade média. No futuro os historiadores olharão para nosso tempo e dirão que o intervalo entre o final do século XX e início do XXI foi tão retrógrado quanto o período medieval, mesmo com todos os avanços tecnológicos.
A idade média teve início por volta do século V e término normalmente apontado entre séculos XIII e XIV. Vários fatos históricos e culturais são apontados como marcas do início e do fim desse período. Vou me ater aos aspectos culturais e artísticos para depois traçar um paralelo.
A má fama daquela época se deve ao fato de que grande parte do conhecimento e das técnicas artísticas greco-romanas se perderam, sumiram mesmo. Os ideais estéticos, técnicos e científicos deram lugar a uma sociedade cercada pela religião, recheada de puritanismos que se refletiam numa arte castradora, idealizada e fria.
Pensadores e cientistas que buscavam a evolução e o crescimento do saber humano eram acusados de bruxaria, presos, mortos e queimados em praça pública. As artes, a ciência e a cultura sofreram enorme retrocesso pois o ideal religioso prevalecia sobre qualquer coisa.
Mas o que temos em comum com isso? Diretamente nada, mas existem semelhanças interessantes.
Muitos artistas renegam o trabalho tecnicamente elaborado em nome de uma pretensa liberdade estilística moderna, não mais por pressão religiosa e sim por livre e espontânea vontade, abdicam do conhecimento e da técnica porque querem e por preguiça de estudar.
Não sou contra a modernidade, pelo contrário, mas penso que só podemos quebrar regras depois de conhecê-las e compreendê-las. Algo que Picasso e Dali fizeram ao estudar os clássicos antes de criarem suas próprias formas de expressão. Estavam certos no meu modo de ver e suas obras geniais são provas de que estudo não faz mal a ninguém.
No caminho inverso, e para ficar só na fotografia, vejo colegas que emitem frases como: “este é meu estilo”, “meu modo de ver o mundo, distorcido e escuro”, ou ainda “minha arte, minha criação”. Discursos comuns vindo de gente que não consegue iluminar um cacho de uvas sobre uma mesa.
Na música atual vemos o mesmo comportamento refratário à técnica. É a vitória do movimento punk, do faça você mesmo e dane-se o estudo. Isso se espalha por todas as áreas do conhecimento e da cultura.
Os reflexos dessa atitude “punk” avessa ao conhecimento estão por aí, temos essa arquitetura pobre de prédios iguais que se espalham pelo país, pinturas sem profundidade, conceito ou valor artístico e a moda que só recicla conceitos dos anos 70 e 80 sem lançar novidade alguma.
Mais exemplos? Alunos dando “copy’n’paste” da Wikipedia e chamando isso de pesquisa, jornalistas que se pautam em qualquer coisa, diretores de arte “criando” com idéia alheia e todos usando belos discursos para convencer seus clientes de que aquilo tem algum valor.
O império da mediocridade se espalha rapidamente. O lamentável é que isso significa que para boa parte das pessoas qualquer coisa serve, estão se contentando com pouco.
Paralelamente uma igreja continua proibindo o uso de um simples preservativo, “demonizando” uma criança estuprada e se julgando no direito de interferir nas vidas daqueles que não seguem seus preceitos. Dizem que defendem a vida, enquanto esta tem valido pouco, retirada a bala nas esquinas deste país.
Se depois disso tudo este tempo não puder ser chamado de era das trevas, então não sei o quanto mais fundo iremos até merecer o rótulo.
Precisamos de um renascimento, temos urgência por gênios, da Vinci, Michelangelo, Rafael, Galileu, Maquiavel. Mentes inquietas que mudaram o mundo e nossa maneira de pensar, por onde andarão?
Nos vemos em duas semanas,
[]’s
Armando Vernaglia Jr
ps.: Ilustro este texto com uma foto que fiz na Basilica di Santa Croce, local onde boa parte da genialidade do mundo está enterrada: Galileu Galilei (túmulo em primeiro plano), Michelangelo, Dante Alighieri, Maquiavel, Rossini e vários outros.
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Armando Vernaglia Jr, 34, é fotógrafo publicitário, vive em busca de novas imagens inspiradoras, interessantes e únicas. É também professor de fotografia, palestrante e consultor nas áreas de imagem e branding. Graduado em publicidade e especializado em comunicação organizacional, ambos pela Cásper Líbero. Escreve para a Casa do galo quinzenalmente, às sextas-feiras.
contato@vernaglia.com.br | http://www.vernaglia.com.br

Fala pessoal! Meu nome é Lucas Couto e sou co-criador, junto com Patrick Estrabom, do site Que Tal Isso?, dedicado à criatividade, inovação e empreendedorismo – e a partir de hoje começa nossa parceria com a Casa do Galo. Toda semana você vai encontrar aqui artigos tratando de criatividade, pensamento inovador, e tudo mais que tenha relação com o mundo das novas idéias, sempre de um jeito descontraído e bem-humorado. Então vamos lá.
Qualquer um que tenha ao menos passado perto de uma sala de aula de Publicidade, ou mesmo esbarrado por aí no tema “criando coisas novas”, já deve ter ouvido falar no famoso dilema: Criatividade é um dom, ou uma habilidade que se aprende?
E por mais batido que o assunto seja, parece que nunca se chega a uma conclusão. Não porque o pensamento analítico falhe quando se discute o ato de inovar, mas porque a teoria sempre é diferente da prática.
Na teoria, qualquer um pode ser criativo, seguindo uma equação básica:
Criatividade = Ingredientes + método + ousadia/bom-humor
Explicando rapidamente, ter ingredientes significa ter uma vida rica em estímulos mentais; ter método é saber encaixar esses ingredientes de diferentes maneiras e ousadia/bom-humor se baseia em aceitar a possibilidade de levar um NÃO.
Mas é no dia-a-dia que a porca torce o rabo. Se qualquer um concorda que a criatividade não vem de berço, porque alguns ainda insistem no “ah, é que eu não sou criativo(a)”?
Arrisco dizer que os três maiores ameaçadores da criatividade são a falta de vontade, a falta de costume, e a falta de coragem.
Na verdade 80% da não-criatividade vem da falta de vontade. É mais fácil culpar o universo que não o fez criativo, que sair da zona de conforto. Outros 20% se dão pela falta de costume, quando a pessoa até se mexe, mas não sabe muito bem como agir. E há também a falta de coragem, que permeia todo o 100%, impedindo as pessoas de ousar pelo medo do erro, do ridículo, da exposição negativa.
Mas existe ainda um elemento externo,que reforça essa impressão mágica que a criatividade carrega. Pessoas que parecem tirar novas ideias da cabeça como um mágico tira cartas da manga. “Como ele consegue, e eu não?”.
Boa parte da nossa personalidade, valores e costumes se forma nos primeiros anos de vida. Então faz sentido dizer que se nós tivemos uma infância rica, com pais incentivando a ousadia, entendendo (e não punindo) o erro, e trabalhando a auto-estima do moleque, o adulto que sai daí provavelmente se sentirá mais à vontade para expor seus pensamentos, refletir sobre o mundo e gerar novas ideias.
Ou, colocando de outra forma, criatividade é como o futebol. Alguns podem ser mais propensos à maestria, mas com vontade e dedicação, você pode se tornar um bom atleta.
E é claro que esse papo todo serve não só aos que se dizem não-criativos, mas também aos que se vangloriam de suas boas ideias. Você não vai muito além de um atacante que faz gols. Não é nada demais, não é nada mais que sua obrigação.
Em um mundo tão carente de conceitos inovadores, a criatividade é a mais carne-de-vaca das habilidades. Mas, ainda assim, obrigado por suas novas ideias.
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Lucas Couto, 26, Co-fundador e sócio da It’s Digital, uma consultoria e produtora digital e uma das cabeças por trás do Que Tal Isso?, blog relacionado a criatividade e inovação. Escreve para a Casa do galo quinzenalmente, às quintas-feiras (no calendário de Júpiter).
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