O lado B de um anúncio ou o poder belicoso das palavras
Nada mais natural do que médicos sonharem com acidentes de automóveis dantescos, bombeiros sonharem com labaredas de fogo lambendo arranha-céus e pessoas se atirando desesperadas das janelas; bancários sonharem com notas e mais notas de cem reais (porque elas existem mesmo só em sonhos!); atletas, com o lugar mais alto do pódio ― enfim, diante desta configuração, nada mais natural que um redator, escritor ou coisa que o valha, sonhar com palavras.
Um escritor de quem não me lembro o nome disse, certa vez, que se aproximar das palavras era algo um tanto quanto perigoso. Achei pedante da parte do moço esta coisa de, só pessoas como eu, iluminadas, podem ser guardiãs da palavras; mas não é que o outro lá tinha razão? Explico.
Desde que passei a lidar com palavras, seja escrevendo minhas aspirações (transpirações) literárias, seja escrevendo anúncios, a vida nunca mais foi a mesma, ou melhor, os sonhos. O fato é que diante dessa descoberta, até mesmo um simples bilhete avisando meu namorado de que eu tinha ido ao supermercado comprar comida se tornou um verdadeiro inferno.
Tenho me sentido um Rei Midas, que ao tocar nas coisas se torna vítima do que o fez poderoso (ui!). Pois então, eu digo, assim como nosso amigo de quem não me lembro o nome, que as palavras funcionam como artefatos belicosos, que podem fazer estragos, quando utilizados sem o devido cuidado. O mesmo acontece na publicidade ― o lugar onde, por vezes, as palavras são manuseadas de forma displicente.
Toda esta divagação era pra se retornar ao ponto de partida, lugar onde nascem os anúncios publicitários. Para um anúncio de sabonete, por exemplo, é preciso de um encadeamento de palavras, como: pele, suavidade, limpeza, beleza; palavras que a priori parecem não ter nenhuma relação umas com as outras, mas que engatilhadas e apontadas juntas para o mesmo alvo, o Target, tem a potência de uma HK, ou o poder da teia do homem aranha, que gruda de tal forma que, para o sujeito capturado, fica mesmo impossível escapar ileso.
Penso que este poder de “destruição” inerente às palavras está intimamente ligado ao fato de um anúncio do caralho ser mesmo uma questão de “transpiração”. Raríssimas vezes nos ocorre uma iluminação de São Mohallem ou de São Peralta. No mais das vezes a coisa é punk.
Escrevinha-se horas e horas, isso caso seu diretor de criação seja legal. Afinal de contas a bomba atômica não foi criada num dia só. E reunir as palavras certas para se fazer uma hecatombe necessita suor. As palavras precisam ser amassadas, sovadas, vistas, revistas para serem servidas ao Target. Um bom texto de anúncio, assim como qualquer palavra que seja lançada na tela branca, onde pisca um cursor que me causa verdadeiro pânico quando ela permanece branca durante mais de 1 hora, é aquele se apossa das palavras certas, na dosagem certa, “al dente”, como diriam os italianos, nem duro, nem salgado: ao ponto. Caso contrário corre-se o risco da bomba preparada estourar no seu colo ou ferir o nosso querido Target, e isso realmente não vai ser legal. Porque como já dizia um anúncio, cujo redator também não me lembro o nome: “Potência não é nada sem controle”.
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Lenise Regina, 30, está redatora publicitária até o próximo anúncio, quando então seu chefe descobrirá que "Lenise" é um pseudônimo e que "Regina" é apenas um desejo antigo de nobreza; sendo assim, ele não hesitará em lhe dar um pé na bunda e revelar-lhe-á que a monarquia no Brasil foi extinta desde 1889. Escreve para a Casa do Galo quinzenalmente às segundas-feiras.
leregina@gmail.com | http://www.nimboblog.wordpress.com
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Lenise, parabéns pela estréia! Você tem toda razão, as palavras são poderosas…
A antiga questão das palavras… tão antiga e tão sempre atual e verdadeira.
Lenise, parabéns pelo ótimo artigo. Só não têm problemas com palavras aqueles que não as usam. A publicidade muitas vezes é traiçoeira. Você sabe que não pode deixar o texto daquela forma, que dá pra melhorar, que você ainda não atingiu o ponto máximo da criação com palavras… mas o prazo esvaiu-se. Acho que por isso, em muitos casos vemos descasos com as palavras nos anúncios por aí, porém nem sempre propositais, mas força da situação. O que levo em consideração é que sempre os artistas das palavras precisam se superar, e isso é coisa própria, é uma luta consigo mesmo.
Aplausos de pé para seu primeiro artigo. Atitude que, sem palavras, fala sem errar o que sentimos.
Como jrpunketone disse “Só não tem problemas com as palavras aqueles que não as usam”. Parabéns Lenise, ou Regina hehe, muito boa a harmonia..
A parte mais difícil de escrever um bom texto ou um bom anúncio é exatamente a de escrever, e você conseguiu.
Abraços.
Tiago Fidelis Moralles’s last blog post..Ensaio sobre a cegueira
Vê lá, hein, Lenise! Não é qualquer um que pode escrever às segundas por aqui hehe.
Excelente estréia! Esta Casa estava precisando de mais uma visão feminina.
Seja bem-vinda!
Alessandro Ribeiro’s last blog post..Da boca em forma de coração
Seja bem-vinda, Lenise!
Teremos palavras escolhidas cuidadosamente às segundas então.
Rafael Amaral’s last blog post..Reinventando o marketing e a propaganda
ô pessoal,
obrigada pela acolhida, acho que as coisas vão ser bem legais por aqui.
Beijos a todos
Vigi…Elas são realmente poderosas.
“Na minha terra isso dava até morte” rsrs
Bom Post.
Abraço.
Gutos’s last blog post..Hitler, O Líder que Não Escondeu
[...] O lado B de um anúncio ou o poder belicoso das palavrasNada mais natural do que médicos sonharem com acidentes de automóveis dantescos, bombeiros [...]
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