O dia em que o mídia parou
O Renato é daqueles caras que te conquistam logo nas primeiras palavras. Me lembro como se fosse hoje, quando nos conhecemos num daqueles eventos que os veículos fazem pra apresentar um novo produto ao mercado. Se não me engano, era um novo programa de entretenimento aos sábados a tarde, para fazer frente aos programas de entretenimento das emissoras concorrentes. E foi com uma resposta para uma simples questão corriqueira e despretensiosa que o Renato conseguiu chamar minha atenção e fazer com que nos tornássemos ótimos amigos.
Nossa primeira conversa foi a seguinte:
Eu – Opa, tudo bem? Você é mídia de agência?
Renato – Mídia de agência! Taí uma coisa que nunca me chamaram.
Eu – Prazer, sou o Claudinei, da agência Divulgue.
Renato – Renato, agência Comunike.
Eu – Ah, a Comunike. Bacana. Faz tempo que você trabalha na mídia lá?
Renato – Então, cara. Eu entrei lá naqueles esquemas de estagiário que vai passar por todas as áreas pra saber se serve pra alguma coisa. Aí eu até fiquei uns 2 dias indo de área em área, vendo o que o povo fazia, mas a cadeira que tinha do lado da Gabi, a supervisora de mídia lá da agência, era a mais confortável: estofadinha, com encosto de braço, giratória, com rodinha… as outras cadeiras das outras áreas eram muito ruins, aí eu chegava todo dia cedinho e sentava direto na cadeira do lado da Gabi. Acabei aprendendo a mídia e aí o chefe disse que era pra isso que eu servia. Eu disse que tudo bem e aí faz uns 2 anos e meio que to por lá.
Pronto. O início da amizade se deu assim e passamos o evento inteiro conversando, falando de mídia, de agências, de clientes.
O Renato é bom no que faz. Não sei se por causa da cadeira, por causa da Gabi ou de méritos próprios, mas ele sabe o que faz e faz bem, além de ser ágil, conhecer a parte técnica das mídias, ter uma boa reputação entre a maioria dos contatos dos veículos, enfim.
Portanto, sempre que dava marcávamos algum happy hour pra ficar tomando cerveja e falando besteira, e de mídia, de agências, de clientes. Nunca paramos de nos falar, o Renato é um grande companheiro.
Mas, devido ao aumento de trabalhos tanto da minha parte quanto da dele, faz um tempinho que a gente não consegue trocar ideias, nem por mensagens muito menos pessoalmente.
Mas ontem recebi um email do Renato. Um email estranho, muito estranho. Aí vai:
Data: Terça-feira, 27 de Agosto de 2019
De: Renato P. Rocha
Para: Claudinei Jr
Assunto: O dia em que o mídia parouMeu grande amigo, Claudinei! Como tatu? Tu ta bem?
Quem diria que a situação chegaria a esse ponto, hein! Mas também, nem o mais visionário pessimista imaginaria um cenário como este: o dia em que não poderíamos mais fazer o que tanto gostamos, que não poderíamos mais pensar em esquemas para falar com aquele senhorzinho que gosta de tomar uma branquinha no bar da esquina ou com a patricinha que passa mais tempo na frente do espelho se arrumando pra sair do que na própria balada. Nem o mais visionário pessimista imaginaria que chegaria o dia em que o mídia parou, não é mesmo?
Aconteceu tudo tão rápido e tão ao mesmo tempo que, acho eu, nem percebemos que estávamos caminhando pra isso. Pô, meu amigo, vê se você concorda comigo: quem de nós, criados na transição de épocas tão distintas, que conhecemos desde gramofones até internet com megavelocidades, pensaríamos que hoje cada pessoa teria seu próprio veículo? Era inimaginável. Nos chamariam de loucos se disséssemos isso alguns anos atrás. Mas taí, agora cada um na sua, né? Ou melhor, cada um com a sua, né? Hahaha. As empresas acabaram gostando, pelo que vejo. Elas pagam direto só pra quem elas querem e recebem as propostas diretamente dos clientes delas. E é tudo permuta, você já viu? “Olha, eu deixo você me oferecer 10 produtos por semana e, a cada 2 que eu comprar você me paga a média do valor em produto ou desconto na próxima compra”. Pô, até eu entrei no esquema! Comecei a mobiliar meu apê novo desse jeito e o pior: to achando o máximo.
Agora o lance do computador de pulso com tela holográfica eu ainda sou meio contra. Virou uma zona geral aquele povo tudo de braço dobrado e aquele enxame de telinhas que não existem, cada uma mostrando uma coisa. E o povo parece que faz questão de escolher wallpapers ridículos pra colocar no troço. Bom, pelo menos isso não mudou, o mundo continua brega. Mas esse tal de computador de pulso aí virou meio que o celular na nossa época, lembra? De repente, todo mundo tem e, de uma hora pra outra, vira item básico. E se você não tem fica parecendo gente de outro mundo. Acho que não vai ter jeito mesmo, vou ter que comprar também.
Bom, to mandando esse email porque já faz um tempinho que a gente não se encontra né? Já ta na hora! Apesar que ta difícil ficar na rua, de boa, por muito tempo, diz aí. É nêgo pulando de bung jumpee pra abrir banner de promoção da loja de roupa, criancinhas no parque com camiseta de sabão em pó pra mostrar que “a mamãe pode deixar os pimpolhos se sujarem que a roupa vai ficar branquinha”, grupo de modelo desfilando na ilha da avenida pra mostrar a nova coleção de biquínis pro próximo verão (essa eu fiz questão de ver). Cada coisa mais clichê que a outra, um saco!
Mas é isso. Assim que der me manda uma resposta aí, me diz como você ta, o que ta pensando em fazer, se arrumou algum trampo em outra área da agência ou se vai partir pra alguma coisa diferente… eu to visitando umas empresas aí, to tentando a vaga de analista de propostas para veículos pessoais das classes A/B AS 20+ da Zona Sul. Parece que é nessa área que a coisa ta bombando e acho que dá pra tirar quase a mesma coisa que eu tirava na agência, só não sei se vou conseguir segurar os benefícios… a concorrência ta grande.
Vamos nos falando, meu amigo. Saudade de conversar contigo. Parece que foi ontem que a gente se conheceu naquela festa! Ainda lembro aquela cena, você chegando, a gente nunca tinha se falado e a primeira coisa que você me perguntou foi quem eu achava mais gostosa: mulher de atendimento de agência ou contato de veículo! Bons tempos, hein.
Forte abraço, meu caro.
Ah, esse Renato. Engraçadinho até daqui 10 anos.
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Claudinei Junior, 25, é publicitário para viver e não vive para publicidade. Na agência Marca-X, trabalha com planejamento e mídia. Coagiu seus ex-professores com métodos nada convencionais e, por isso, também é professor universitário da Faculdade de Comunicação de Pres. Prudente (Facopp/UNOESTE). De quebra, escreve para a Casa do galo quinzenalmente, às sextas-feiras.
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Claudinei Junior, 25, é publicitário para viver e não vive para publicidade. Na agência Marca-X, trabalha com planejamento e mídia. Coagiu seus ex-professores com métodos nada convencionais e, por isso, também é professor universitário da Faculdade de Comunicação de Pres. Prudente (Facopp/UNOESTE). De quebra, escreve para a Casa do galo quinzenalmente, às sextas-feiras. 







Que medo!
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Claudinei, como sempre muito inteligentes e cativantes seus artigos… dá até medo de ver a data deste então, 2019, só 10 anos para isto hipoteticamente acontecer.
Mas lhe confesso, da medo só de pensar o buraco negro que temos pela frente em relação as possibilidades de plataformas de anúncios para os próximos 10 anos, o quanto teremos que nos virar para mantermos-nos atentos e atualizados com a avalanche de meios, serão as propagandas em celulares multimídia, a tv-net vingando realmente como convergência do que hoje conhecemos como meios de entretenimento familiar, como se já não bastassem os busdoors, cardoors, dogdors, postedoors, webbanners… aff, nem dá pra contabilizar.
Daí, acho que “o dia que a mídia parou” jamais vira a ocorrer, empresas recebendo os pedidos diretamente do cliente.. alguém vai ter que pensar e edificar toda essa estratégia, tá mais provavel “o dia que nosso coração parou de tanto correr atráz para se atualizar”, sempre em busca das formas mais contemporâneas de se fisgar um novo cliente.
Sucesso.
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Hahaha
Belo e-mail!
[Responder]
Eduardo, obrigado pelo elogio aos meus artigos. No caso deste, é claro que ele está carregado de exageros… ou talvez não. Sem querer alongar muito o comentário (quando falo isso significa que vou escrever um monte), li esta semana alguma coisa que falava sobre a preocupação e a concentração em se criar coisas novas, principalmente acessórios tecnológicos, como se isto fosse a mola propulsora da humanidade, em detrimento de se refletir sobre o próprio ser humano. Digamos, grosso modo, que seria algo como acharmos que a vida só é possível com e por causa desta `evolução material’. Mas será que tudo isso é realmente necessário? Deixando este lado filosófico pra lá, eu também não acredito que a profissão de mídia será extinta, e mais do que imaginar como teremos que nos virar com cada vez mais plataformas surgindo, dos mais diferentes tipos e com características e requisitos técnicos cada vez mais específicos, penso que a maior dificuldade será sabermos efetivamente o que funcionará, o que chamará a atenção das pessoas e entregará aquela mensagem tão cuidadosamente feita pelos criativos, designers e artistas da comunicação para receptores cada vez mais individualizados.
Alessandro, antes de mais nada, que honra receber um comentário de uma pessoa tão ilustre como você. E seu comentário nada mais prova do que aquilo que eu disse no começo do texto: o Renato é craque em conquistar as pessoas logo no primeiro contato. Bastou um email para você simpatizar com o cara. Passarei a mensagem a ele.
Jock, sugiro que você durma com a luz do corredor acesa. Isto ajuda a reduzir seu medo. hehe
Estou com um probleminha técnico e, caso haja mais comentários após estes três, estarei de volta assim que tudo estiver normalizado para trocarmos mais ideias.
Bom final de semana a todos.
[Responder]
I like the photo. It talks. The picture looks like the overview of my life… Good work.
Sorry for I can’t read the text. The language was unknown to me, Therefore I focused exclusively on the shot and applaud the hot.
[Responder]
Bela história, sucesso para você.
[Responder]
Bela historia ,quem sabem ate 2019
[Responder]
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