Home » ação, institucional, polêmica, responsabilidade social

Marketing engajado ou marketing do empurra?

23 janeiro 2009 8 comentários escrito por veronica

teamwork thumb Marketing engajado ou marketing do empurra?

Quando tomamos uma atitude, ela é estimulada por medo/culpa ou vontade. Se você faz por medo/culpa, não existe interesse na ação. Quando há desejo, as ações são repetidas de uma forma natural, saudável e sincera. Observo as pessoas e tento entender por que algumas delas se sentem motivadas e outras não, a ajudarem organizações não governamentais.

Li uma entrevista do escritor Dave Eggers, autor do livro “O que é o quê”, e fiquei encantada quando ele falou sobre literatura engajada. “O engajamento me energiza”, disse o autor. Na verdade, o que me chamou a atenção foi o termo: Literatura engajada. É instantâneo. Você lê e percebe que se trata de uma ferramenta que luta por uma causa. “Responsabilidade social”, “Sustentabilidade” e “Marketing para o terceiro setor” são nomes que não me transmitem paixão. Já “Literatura engajada”, meu pensamento vai longe. Sinto energia, empenho, determinação, garra, intensidade.

Já recebi ligações de associações onde fica nítido que o próprio funcionário não tem qualquer apego pela causa. Empurra, gospe, joga e atira palavras sem nenhuma consistência emocional. O assunto é claro: hey, existem seres humanos que precisam da sua ajuda. O marketing do empurra não tem nada de humano. Contraditório, não? Alguns dias atrás recebi uma agenda “sem qualquer compromisso” de uma Ong. A arte foi toda criada através de fotos escolhidas por um concurso. Algumas lindas, outras, sem nenhuma visão poética (algumas foram tiradas por amadores e não fotógrafos). Se eu quiser ficar com a agenda, terei de pagar R$ 35,00, caso contrário, o dinheiro da associação será desperdiçado. Isso pode me causar culpa. A culpa como apelo de venda, definitivamente, não é a melhor forma de convencer alguém a fazer o bem. Não escrevo este artigo para julgar a qualidade dos projetos sociais. De forma alguma. O que me preocupa é a sua venda, como isso chega até o público doador. Se a comunicação é tocante ou é medíocre. Campanha social tem que ser chocante. Não apelativa. Mas chocante na alma.

Quero compartilhar algumas referências, que, para mim, são criações maravilhosas. Algumas antigas, mas vale a pena relembrar.

Emocionante. Asociacion Afanoc

Sensacional. Children see, Children do.

Chocante. Abused children can´t speak up

trabalho_infantilCampanha contra o trabalho infantil da Rep-GRey, na Colômbia, embalou pás e expôs em lojas de brinquedo para lembrar que muitas crianças fazem trabalho pesados quando deveriam apenas brincar.

Admiro também o trabalho da revista Ocas. Os vendedores (pessoas em extrema vulnerabilidade social) são muito gentis, atenciosos e transbordam alegria. A revista é uma excelente fonte de informação. A divulgação dos vendedores é feita de uma maneira muito agradável.

Meu objetivo neste artigo não é julgar a qualidade dos projetos, mas sim refletir quanto a abordagem de convencimento. Se fosse assim, teria uma lista imensa de projetos maravilhosos para dar de exemplo. Como publicitária e alguém incomodada com o mal-estar social, fico preocupada com algumas estratégias de marketing social, que promovem o efeito contrário. Cria-se antipatia ao invés de empatia pela causa.

Marketing engajado. É assim que tem que ser. Envolver o target na luta por um ideal. Fazê-lo acreditar na sua importância em relação ao mundo. No quanto ele pode mudar a vida de alguém, de um grupo, de uma sociedade. Não ser mais um depósito, uma ajudinha. Emocionar. Comunicar com a energia de um sonhador. Tocar na alma. Sem aquele ar de pobre coitado. Mas, sim, ser o organizador do protesto. Mesmo que seja um protesto que não saia nas ruas, não grite e não tenha bandeira. Um protesto que precisa de comprometimento para continuar a andar.

Incentivar o engajamento e não a esmola. E isso só funciona se há paixão pela causa.

As ideias e opiniões expostas nos artigos são de responsabilidade exclusiva dos autores, e podem não refletir a opinião da Casa do galo.

Se você gostou deste artigo, assine o RSS feed da Casa do galo. Você também pode receber os artigos por e-mail.

Verônica Verônica Porsani, 24, é redatora publicitária e acha muito estranho ser chamada de redatora. Já passou por cliente, veículo e agência. Defende a propaganda bom senso - engraçadinha, eficaz, porém ética. Escreve para a Casa do galo quinzenalmente, às sextas-feiras.

veronicaporsani@gmail.com | http://porsani.blogspot.com


Últimos artigos escritos por veronica

Blog Widget by LinkWithin

veronica já escreveu 12 artigo(s) para a Casa do galo.
Leia as colunas anteriores do(a) veronica.

Este artigo tem as seguintes tags: , , , , , , , ,


8 comentários »

  • Neto Macedo disse:

    Cara. 3 anúncios fodas esses daí. Nem comento muito aqui. Mas depois de ver esses três anúncios eu tinha que demonstrar ao menos a minha perplexidade.

    [Responder]

    veronica Reply:

    hahaha também fico perplexa.
    da série: eu gostaria de ter criado isso.
    acho o "children see, children do" o mais chocante.
    eu amo esse tipo de propaganda. é sensacional.

    [Responder]

  • Diego Jock disse:

    belos anúncios!
    e esse negócio da ong da agenda é foda…

    [Responder]

  • David disse:

    Eu só digo isso:
    Quantas ONGs queriam ter dinheiro pra investir em produções como essas daí de cima?…
    E mesmo com toda essa beleza, mostrando o engajamento pela causa, a gente nunca sabe
    da parte negativa da coisa (da administração, por exemplo), de tão encantados pelas campanhas.
    Mas eu não sou um descrente, se é isso que pensaram.
    O que eu quero dizer é que existem instituições menores, com menos oportunidades de contratar agencia, produtora, e que ficaram estagnadas no seu modo de comunicação com o colaborador. Mas isso não quer dizer que não fazem seu papel melhor que as grandes ONGs.
    Enfim, é questão de ter consciência das restrições de cada organização.

    PS- isso não quer dizer que eu concorde com o "caso agenda".

    [Responder]

  • Nay Back disse:

    Eu fiz um estudo sobre o terceiro setor na disciplina de gestão e simplesmente não da para acreditar, pelo menos ao meu ver, é algo bem delicado de ser trabalhado, e como tem tanta gente que enrriquece trabalhando nessa área….

    Acredito bastante quando vc diz que as pessoas devem se comover em ajudar, e não em dar esmolinhas…

    Gostei do primeiro video…

    Abraços!!!

    [Responder]

  • Paulo Peres disse:

    Ótimo post Verônica, nos faz lembrar realmente da importância de se ter uma melhor abordagem para este tipo de marketing. Marketing para o terceiro setor é algo ainda pouco aprofundado.
    Um bj

    [Responder]

  • Marcelo Fradim disse:

    Acho realmente excepcionais os comerciais do terceiro setor. Um abordagem realmente dignas de premiaçoes os vídeos apresentados. Educar as vezes é relembrar as pessoas as boas atitudes da vida.

    Parabéns pela abordagem.

    [Responder]

  • Marcio Rocon disse:

    Parabems…
    .

    [Responder]

Deixe seu comentário!

Adicione seu comentário abaixo ou faça um trackback diretamente de seu site. Você pode também pode acompanhar os comentários deste artigo via RSS.

Esse blog utiliza o sistema Gravatar. Caso sua foto não esteja aparecendo em seu comentário, registre-se.

Comment moderation is enabled. Your comment may take some time to appear.