Inspiração x transpiração

Sempre assinei embaixo da grande verdade criativa: criação é 90% transpiração e só 10% inspiração.
Quem trabalha na área sente nas entradas, cada vez mais calvas, o que é isso. Queima-se fosfato pacas, devora-se pizzas e mais pizzas madrugadas afora e fabrica-se diamantes que, após as conseqüentes apresentações ao cliente, transformam-se, quem sabe e, às vezes, em ótimos bijoux.
Sempre transpirei muito. Muito. Transferiam-me elogios e eu ficava com eles por imaturidade. Mas assumo que sempre transpirei muito. E ainda reclamava do barulho insano dos ares-condicionados.
Bem, em meio a tanto suor, rolava frustração aqui, alegria ali, vibração acolá, alguns chopps (porque ninguém é de ferro), uns preminhos não-pagos na APP e uma inspiração explícita a quem eu a confiava, mas meio que se tornara implícita por não ser sempre lembrada, cultivada.
Martelada, dita, repetida, mensalmente transferida.
Coube ao tempo se encarregar do resto. Perdi a inspiração. Ela se foi com o vento. E fez eu questionar meu talento. Percebi que ela correspondia, pelo jeito, aos 90%.
Que dependência de um olhar, serenidade, encontros, certeza e todos os achismos (pessoais) envolta a eles era essa, que após o vendaval me pôs a crescer pessoalmente e despencar, nas mesmas proporções, profissionalmente…
Calma, embora pareça, isso não é um lamento.
Alimentamos nossa criatividade com qualquer coisa, seja a leitura, a curiosidade, músicas, as coleções, interesses diversos, anuários, trecologias e afins. Mas faltava uma sintonia em mim. 2407MHz, frequênciamodulada.
Nadei com um braço só uns três meses e até dia desses, lutando contra a maré, me afogando no desinteresse pela TV, na razão da criação, o que culminou com a perda do emprego em um cargo onde quem ocupa a cadeira, acredite, está em extinção…
Mais eis que uma hora, enfim, a Lua brilhou para mim.
Primeiro veio a bóia salva-vidas da atitude, absolutamente nada Mingüante. E a sua fase Nova clareou o necessário para se fazer nova as esperanças. Na seqüência, me vi translúcido nesse astro mais romântico do que o calorento. Lua Cheia de vida e de sonhos sob medida; praticamente as mesmas experiências.
Há, hoje, inspiração de sobra para, por que não e de repente, um Quarto Crescente, simplesmente porque questionei quem é mais inspirador: a Lua ou o grande vendedor de filtros protetores para a pele.
“Acima das cintilações da propaganda e de seus inúmeros significados universais, existe, sempre, em cada anúncio, cada título, cada mote, um encontro marcado entre duas pessoas”: eu e quem me inspira.
Bastou ajustar a sintonia para 0808MHz, ondas curtas. E ver fascínio na noite, tanto quanto eu via luz no dia.
Flua em mim, inspiração, que os meus poros transpirarão essa coisa quase divina chamada criatividade.
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Mauro Sérgio de Morais está redator e tem alguma experiência. Também tem alguns prêmios e uma dificuldade tremenda em escrever currículos na terceira pessoa.
Escreve quinzenalmente para a Casa do galo, às sextas-feiras.
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E que a inspiração esteja com você.
Belo texto, maurão. O que somos sem a bendita inspiração?
Abraços e sussa!
esses homens maravilhosos e suas musas.
elas, fazem arte e eles, dinheiro.
abraço Maurão.
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