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Eugência

28 janeiro 2010 7 comentários escrito por Mauro Sérgio

ego Eugência

Ele é egocêntrico. Ele é autodidata. Ele é uma tremenda de uma lábia. Ele não é ele. É eu. Ah, os pronomes pessoais já entenderam. Eu, agência, tá mais pra pronome possessivo sob a forma de um Eugência.

Um sujeito plurisingular que dá conta do recado publicitário do jeito que o seu “eu” acha que é o correto. Eumbigo desgraçado. O Eugência está mais para pavão do que para galo. Quem canta, cria, exibe a rabiola, bota e vende o ovo é o próprio cara.

Acredito que há Eugências espertos que encontraram clientes com o bizz da segunda pessoa do singular limitado e partiram pro abraço, ganhando assim os seus cascalhos. Como há os Eugências que são centralizadores e devem morrer de tanto trabalho. Por experiência de vida, vou me aprofundar nesse segundo caso.

Há agências que começaram Eugências, receio eu que muitas. E o meu eu já trabalhou numa dessas por exatos 100 dias. Diante desse prazo quase monossilábico, saio eu em minha defesa. Nessa “agência” redatores não param 30 dias e o eu aqui se segurou por 100.

Acontece que, por mais polivalente que um Eugência seja, sempre tem uma área na qual é mais especialista. E o Eu lá era expert em redação publicitária padrão anos 70. Aí já viu. Não há terceira pessoa do singular que resista. O Eugência contratava por pressão das filhas e descontratava por pressão do ego e estilos próprios, detentor de uma escrita pomposa e formalizada, que só ele mesmo para escrever e aprovar os convites de casamento em forma de e-mails marketings, anúncios de jornal e uma caralhada de folhetos suja-ruas.

Por falar em parêntes, Eugências – com porte de agências – colocam a esposa, a filha, o filho e o cão para trabalharem junto deles. Assim os seus eus conseguem delegar cargos mais privilegiados a pronomes pessoais de confiança, mantendo o braço forte e o sangue legítimo Eu+ (eu positivo) à frente do negócio, ficando a criação da agência, ou melhor, a execução braçal dos anúncios, aos demais pronomes indefinidos.

E assim os redatores vinham e iam até a primeira pessoa do singular aqui chegar por lá. Em seguida, contrataram também um planejador que trazia na bagagem o modus operandi de uma agência de verdade. As filhas do Eugência aproveitavam as suas gravidezes para prospectar algum progresso do Eupapi, mas, segundo o planner, o Eugência bufou feito touro bravo quando, numa reunião com a cúpula pronominal, ele, apenas um sujeito de muito profissionalismo e boa vontade, teve que explicar para todos como funcionava uma agência hoje em dia.

Nota: Eugências são inimigos da inovação. Se pudessem, mandavam matar quem criou a dupla de criação. Para Eugência, no máximo, é permitido a cabeça pensante dele e os braços executores de outro (algum especialista em softwares gráficos que faz exatamente o que o Euele deseja). Por isso é que Eugência geralmente atende contas de varejo. Num mercado onde a mesmice impera, ganha o Eu que chegar na frente.

E foi assim que a primeira pessoa do singular que vos – segunda do plural – escreve aventurou-se (pronome oblíquo átono) em meio a umas moças estudadas, mas reprimidas pela imposição paterna, a uma senhora (pronome de tratamento) que despejava esporros por conta de recebê-los (olha outro pronome oblíquo aqui) do Eugência e de uma agência que parecia fábrica. Mecanizada. Tocada por um pronome pessoal tão possessivo que, no primeiro contato comigo (me, mim, comigo), contou a sua história de vida – onde percebi que se tratava de um autodidata – e que pretendia trazer publicitários renomados para palestrar sobre mercados, tendências, negócios e criatividade para os funcionários, as agências locais e clientes. Impressionando-me (…) o máximo que podia para, depois de 100 dias o meu eu contabilizar que o eu dele, não estando na agência, meu trabalho fluía. E, quando estava, tudo o que eu fazia o eu dele barrava, refazendo em seguida aos moldes dos pronomes de tratamento cerimonioso. Meros textos que pareciam direcionados a advogados.

Ainda nesse ultimato, o Eugência teve a cara de pau de dizer que a empresa não pretendia mais se atualizar, que se tratava de ambiente familiar e que deveria continuar assim. Além de que ele poderia muito bem utilizar as soluções feitas nos anos 80 agora. E assim o eu dele o fez, pois com a minha saída, logo saiu o planner, os planos das filhas logo se perderam e, para completar, pouco mais tarde um diretor de criação de uma agência que respira espírito de equipe me disse que o tal Eugência julga andar sobre as águas.

Eudeus.

Toda sorte para que não perca a fé e morra afogado.

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Mauro Mauro Sérgio de Morais está redator e tem alguma experiência. Também tem alguns prêmios e uma dificuldade tremenda em escrever currículos na terceira pessoa. Escreve de vez em quando para a Casa do galo, às sextas-feiras.

maurosergiomsm@yahoo.com.br | http://www.psvsite.com


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