Escrito à máquina
Eu tenho inveja dos românticos. Falo dos publicitários. Aqueles que atuaram nas décadas de 70 e 80. Esse período está para a publicidade brasileira como a década de 20 está para as artes e a de 60 para a música. Eles participaram de uma revolução, e toda revolução é romântica.
A minha inveja não diz respeito ao estilo de trabalhar, às grandes contas, à fama e ao dinheiro. Ser um saudosista da velha guarda me parece comodismo de uma geração que não tem vontade, não de resgatar, mas de recriar a publicidade e adaptar esse romance para o século XXI.
Ora, se o mercado não está como desejamos, o mínimo que devemos fazer, como jovens promissores que somos, é trabalhar para mudar esse cenário. Educar todo cliente teimoso. Trabalhar em cima de um job como se fosse o mais importante de todos. Espremer cada gota de suor com a sede de uma mente inconformada. Assim, esse romance nunca vai acabar. Do contrário, seremos eternas promessas que não vingaram.
Minha inveja é inocente. É daquelas que não fazem mal a ninguém. Só a mim mesmo. Tenho inveja dos publicitários que escreviam à máquina de escrever.
Lembro da minha infância. Datilografava com a velha e guerreira Olivetti Lettera 22 dos meus pais, ao passo que os primeiros computadores começavam a surgir. Foi o único contato com a charmosa.
Esse é o verdadeiro glamour que os antigos redatores tinham e eu sinto falta. Imagino o imponente datilografar ecoando pela criação, todos olhando para o momento sublime da concepção de idéias.
- Silêncio, todos. O poeta está escrevendo.
Sim, o redator da máquina de escrever era um poeta, um gênio das palavras. E a sua Olivetti, a lâmpada mágica.
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Washington Olivetto e sua Olivetti, no início da carreira
Na contramão do gosto pelas ferramentas de escrita primitivas, eu demonstro aversão ao lápis e ao papel. A escrita se torna enfadonha. Meu prazer em escrever se esvai, frustrante. A culpa não é do lápis, tampouco do papel. É da minha letra infantil, extremamente desestimulante. Imagine escrever olhando para ela!
Mas a Olivetti, ah! Que letra bonita ela tinha.
De certo, nesse mundo de consciência e responsabilidade sustentável, ela e suas dezenas de folhas amassadas jogadas ao léu pela mente exigente do redator, não teriam espaço. O backspace do computador, por sua vez, é ecologicamente correto – embora um dos maiores dilemas da humanidade seja definir um destino para o lixo tecnológico.
De qualquer forma, o computador é a atual realidade do redator. Uma revolução nada romântica.
N. do E.: Olivetto já marcou presença na Casa duas vezes. A primeira delas foi através de um vídeo-paródia que produzimos, quando a Casa fez um ano de vida:
A segunda delas foi através de um artigo especial do Olivetto na Casa:
http://casadogalo.com/washington-olivetto-quem-nao-se-aprimora-se-estupora/
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Matheus Adami Perozzo, 23, é redator do Panda Branding. Adora trabalhar quando chove e odeia ficar trancado na agência em dias ensolarados. Seu melhor amigo é o café preto. Escreve para a Casa do galo às quintas-feiras.
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