Auto-regulamentação. É como prender o cachorro com lingüiça?

Recentemente a ABA (Associação Brasileira de Anunciantes) lançou uma campanha em TV aberta que visa esclarecer os benefícios da propaganda e criar consciência na sociedade sobre as tentativas recentes de regulamentar a propaganda brasileira. Não a profissão propriamente dita, mas sim, determinar em lei, o que pode e o que não pode ser feito nas peças publicitárias veiculadas no Brasil.
Sempre fui a favor da auto-regulamentação e, desde os tempos da faculdade, um defensor ferrenho da não regulamentação da profissão, entretanto alguns acontecimentos recentes têm me feito repensar essa postura.
Em relação às atuais iniciativas de legislar sobre as peças publicitária, acredito que valha a pena levantar duas questões. A primeira de cunho sócio-político: é certo que a propaganda mal intencionada pode causar prejuízos sociais que com certeza devem ser alvo da atenção de nossos legisladores. Mas não acredito que esse seja o motivo principal do interesse desses políticos em criar leis para o mercado. Acredito que seja mais uma cortina de fumaça para esconder problemas reais e urgentes e um palanque político eficiente. Afinal de contas, eles estão “defendendo o povo dos malefícios” da propaganda.
A segunda questão está totalmente relacionada à nossa postura profissional, dos criativos, agências e mesmo dos anunciantes. Baseio meu argumento no próprio código de auto-regulamentação e na história recente da propaganda. Em 2003 o Conar (Conselho Nacional de Auto-regulamentação Publicitária) estabeleceu o que era e o que não era permitido nos comerciais de bebidas alcoólicas, em 2005 essa regulamentação foi revista e de certa maneira, endurecida.
Entretanto, não sumiram as mulheres seminuas nem as insinuações eróticas dos comercias. Também não cessaram as promessas, mais mascaradas é verdade, de sucesso e conquista amorosas para os que bebem essa ou aquela cerveja, ou qualquer outra bebida.
A publicidade, sobretudo a de bebidas alcoólicas, tem jogado um jogo de gato e rato com os regulamentos e a legislação, sempre buscando brechas para continuar a usar o apelo fácil da sexualidade.
Escolhi a propaganda de cerveja, pois é fácil encontrar ali exemplos do que estou expondo, mas ela não é exceção. Comerciais de carro que estimulam a alta velocidade ou mesmo de brinquedos que criam desde cedo nas crianças um estímulo a uma competição de status são freqüentes. E mais tarde gera problemas de segregação escolar, bullying e diversas mortes causadas por excesso de velocidade e bebida.
Claro que não e da publicidade a responsabilidade integral sobre o numero de óbitos no transito ou mesmo pelos problemas de relacionamento da adolescência, mas também não temos feito muito para não incentivá-los.
Agora que a promessa de uma nova legislação ameaça com punições ou restrições sérias a comunicação de alguns produtos, os anunciantes vêem a público, na figura da ABA, tentar defender seus direito de comunicar seus produtos. Utilizando-se do discurso de que a propaganda exerce um importante papel social ao informar o cliente de novos produtos e serviços e estimula a concorrência. E certo sim que ela tem esses papeis, mas não da forma como ela tem sido usada nesses segmentos de mercado.
Antigamente se diria que: “estamos amarrando o cachorro com lingüiça”, pois a auto-regulamentação só funciona realmente se a fome dê alguns anunciantes em ganhar mercado não ultrapassar o bom senso e a responsabilidade social. Auto-regulamentação só funciona com responsabilidade.
E todos nós temos um pouco de culpa. Os criativos por proporem tais peças, as agências por levarem a idéia à frente e o cliente por aprovar. Se continuar assim, em breve toda agência terá em seus núcleos de criação um advogado para tentar achar brechas, não mais no código de auto-regulamentação e sim nas inúmeras leis que com certeza virão.
Não é possível que não tenhamos novas idéias para criar diferencial de comunicação para esses produtos, afinal de contas em outros mercados, legislados ou não, tem se criado grandes peças nesses segmentos que não utilizam o apelo do sexo ou da conquista para vender cerveja. Lembro de pronto do famoso “what’s up” da Budweiser.
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Nauro Rezende Jr, 31, é publicitário e Diretor de Criação e Planejamento da ID Comunicação. Apaixonado pela profissão e suas ciências. Um idealista.
Escreve quinzenalmente para a Casa do galo, às quintas-feiras.
nauro@idmarketing.com.br | http://www.parapensarpropaganda.com.br
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Ótimo artigo, Nauro.
E esse comercial da Bud é ótimo!!
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