A Nova Era das Trevas
|
|
|
Há algum tempo, em conversas com pesquisadores e artistas, venho defendendo a idéia de que vivemos a nova era das trevas, uma segunda edição da idade média. No futuro os historiadores olharão para nosso tempo e dirão que o intervalo entre o final do século XX e início do XXI foi tão retrógrado quanto o período medieval, mesmo com todos os avanços tecnológicos.
A idade média teve início por volta do século V e término normalmente apontado entre séculos XIII e XIV. Vários fatos históricos e culturais são apontados como marcas do início e do fim desse período. Vou me ater aos aspectos culturais e artísticos para depois traçar um paralelo.
A má fama daquela época se deve ao fato de que grande parte do conhecimento e das técnicas artísticas greco-romanas se perderam, sumiram mesmo. Os ideais estéticos, técnicos e científicos deram lugar a uma sociedade cercada pela religião, recheada de puritanismos que se refletiam numa arte castradora, idealizada e fria.
Pensadores e cientistas que buscavam a evolução e o crescimento do saber humano eram acusados de bruxaria, presos, mortos e queimados em praça pública. As artes, a ciência e a cultura sofreram enorme retrocesso pois o ideal religioso prevalecia sobre qualquer coisa.
Mas o que temos em comum com isso? Diretamente nada, mas existem semelhanças interessantes.
Muitos artistas renegam o trabalho tecnicamente elaborado em nome de uma pretensa liberdade estilística moderna, não mais por pressão religiosa e sim por livre e espontânea vontade, abdicam do conhecimento e da técnica porque querem e por preguiça de estudar.
Não sou contra a modernidade, pelo contrário, mas penso que só podemos quebrar regras depois de conhecê-las e compreendê-las. Algo que Picasso e Dali fizeram ao estudar os clássicos antes de criarem suas próprias formas de expressão. Estavam certos no meu modo de ver e suas obras geniais são provas de que estudo não faz mal a ninguém.
No caminho inverso, e para ficar só na fotografia, vejo colegas que emitem frases como: “este é meu estilo”, “meu modo de ver o mundo, distorcido e escuro”, ou ainda “minha arte, minha criação”. Discursos comuns vindo de gente que não consegue iluminar um cacho de uvas sobre uma mesa.
Na música atual vemos o mesmo comportamento refratário à técnica. É a vitória do movimento punk, do faça você mesmo e dane-se o estudo. Isso se espalha por todas as áreas do conhecimento e da cultura.
Os reflexos dessa atitude “punk” avessa ao conhecimento estão por aí, temos essa arquitetura pobre de prédios iguais que se espalham pelo país, pinturas sem profundidade, conceito ou valor artístico e a moda que só recicla conceitos dos anos 70 e 80 sem lançar novidade alguma.
Mais exemplos? Alunos dando “copy’n’paste” da Wikipedia e chamando isso de pesquisa, jornalistas que se pautam em qualquer coisa, diretores de arte “criando” com idéia alheia e todos usando belos discursos para convencer seus clientes de que aquilo tem algum valor.
O império da mediocridade se espalha rapidamente. O lamentável é que isso significa que para boa parte das pessoas qualquer coisa serve, estão se contentando com pouco.
Paralelamente uma igreja continua proibindo o uso de um simples preservativo, “demonizando” uma criança estuprada e se julgando no direito de interferir nas vidas daqueles que não seguem seus preceitos. Dizem que defendem a vida, enquanto esta tem valido pouco, retirada a bala nas esquinas deste país.
Se depois disso tudo este tempo não puder ser chamado de era das trevas, então não sei o quanto mais fundo iremos até merecer o rótulo.
Precisamos de um renascimento, temos urgência por gênios, da Vinci, Michelangelo, Rafael, Galileu, Maquiavel. Mentes inquietas que mudaram o mundo e nossa maneira de pensar, por onde andarão?
Nos vemos em duas semanas,
[]’s
Armando Vernaglia Jr
ps.: Ilustro este texto com uma foto que fiz na Basilica di Santa Croce, local onde boa parte da genialidade do mundo está enterrada: Galileu Galilei (túmulo em primeiro plano), Michelangelo, Dante Alighieri, Maquiavel, Rossini e vários outros.
As ideias e opiniões expostas nos artigos são de responsabilidade exclusiva dos autores, e podem não refletir a opinião da Casa do galo.
Se você gostou deste artigo, assine o RSS feed da Casa do galo. Você também pode receber os artigos por e-mail.
Armando Vernaglia Jr, 34, é fotógrafo publicitário, vive em busca de novas imagens inspiradoras, interessantes e únicas. É também professor de fotografia, palestrante e consultor nas áreas de imagem e branding. Graduado em publicidade e especializado em comunicação organizacional, ambos pela Cásper Líbero. Escreve para a Casa do galo quinzenalmente, às sextas-feiras.
contato@vernaglia.com.br | http://www.vernaglia.com.br
Últimos artigos escritos por armando
- A importância da fotografia
- Uma questão de foco
- Eu não gosto de bancos de imagem
- Cada macaco no seu galho
- "Os fotógrafos sempre têm raiva dos publicitários"
- Fotografia na Casa - Um convite, um texto, avant-première
armando já escreveu 7
artigo(s) para a Casa do galo.
Leia as colunas anteriores do(a) armando.
Este artigo tem as seguintes tags: alighieri, arte, basilica, Criação, da vinci, dante, estetica, Galileu, ideias, leonardo, Maquiavel, Michelangelo, Rafael, renaissance, renascimento

Armando Vernaglia Jr, 34, é fotógrafo publicitário, vive em busca de novas imagens inspiradoras, interessantes e únicas. É também professor de fotografia, palestrante e consultor nas áreas de imagem e branding. Graduado em publicidade e especializado em comunicação organizacional, ambos pela Cásper Líbero. Escreve para a Casa do galo quinzenalmente, às sextas-feiras. 







Excelente texto Armando! Parabéns!
Leciono história da arte para turmas de Publicidade e Jornalismo, semana passada mesmo estava discutindo Arte Medieval e Idade das Trevas, portanto seu artigo chegou numa hora muitíssimo oportuna.
Acabei de reproduzi-lo em meu “pequeno” blog (www.realvic.blogspot.com), dando o crédito a vc e a Casa do Galo. Espero que não tenha problema, qualquer coisa me avise que retiro de lá, ok?!
Abração.
Opa, obrigado pela visita e pelo comentário.
Onde você leciona?
abraço
Leciono Mídia no curso de PP da PUC Campinas e do Instituto Superior de Ciências Aplicadas (ISCA Faculdades – Limeira/SP). E na Faculdade Prudente de Moraes (Itu/SP), além de Mídia, leciono História da Arte para PP e JOR.
Dei aula também para o Rafael Amaral, na Anhanguera de Santa Bárbara. Aluno excelente e um cara ótimo, legal saber que faz parte aqui da equipe.
Tenho indicado com frequência a Casa do Galo aos alunos, conteúdo muito bom!
Vamos falando. Parabéns pelo trabalho.
Abs.
Genial!
Adorei Armando,adorei as comparações e particularmente gosto muitos dos seus artigos.
Abraços.
Armando o raciocínio é esse mesmo, só acho que vc se confunde ao classificar o “Do It Yourself” como algo retrógado, atrasado e sem conteúdo de valor. Poderia usar vários exemplos, mas os pilares da estética punk foram traçados por intelectuais, pessoas de dentro das academias. Concordo que depois virou essa porcaria toda ao ponto de se classificar atualmente um NXZero de hardcore, por exemplo, e de ver pagodeiro empinando moicano. Não podemos nunca esquecer de uma frase da banda Camisa de Vênus que considero emblemática para o momento de conformismo e comodismo que vivemos: “É preciso cultura para cuspir na escultura!”. Quanto aos criativos de plantão, é brincadeira, mas enquanto existir gente usando Radiohead de inspiração e CQC de referência…
parabéns, Armando, você sintetizou tudo que penso sobre nossa época. não só no aspecto cultural, mas no social e político também. é curioso que, na ‘Era da Informação’, poucos de nós pensemos sobre o tema. ou pior: refletimos, concluimos e nos acomodamos.
a vontade de escrever textos como esse me assombra constamtemente… mas nunca escrevi. por quê? ‘ah, já tá tudo muito saturado’.
acho que esse é o principal problema com a minha geração [tenho 16 anos]; tanta informação e conhecimento, em vez de gerar ideologia e atitude, acaba por acarretar em preguiça. é, desânimo. parece que tudo já foi muito explorado, muito comentado, muito discutido. o novo, o REALMENTE novo e interessante, é raro e parece inalcançável. além do quê, há tanto a se conhecer que uma vida só aparenta não bastar – então que eu só viva, sem saber de nada mesmo, só mais um lá no meio da massa e pronto.
sim, é uma realidade difícil. até contraditória. mas acontece, claro!
precisamos urgentemente de uma causa fácil e óbvia para lutar; enquanto ela não vem, deixemos estar o Big Brother, a ignorância, o descaso com o saber.
entretanto, fico muito feliz ao ver que há quem compartilhe comigo esse olhar crítico sobre o que está havendo. cabe a nós, agora, fazer mais do que pensar…
obs: estou boquiaberta com a qualidade dos artigos da Casa do Galo. BRAVO!
[...] · Auto-Ajuda e Desenvolvimento Humano · Ciências Biológicas e Naturais … fique por dentro clique aqui. Fonte: [...]
Lindo artigo.
Parabéns, adoro as suas idéias.
Abs.
O que mais me preocupa na procura de novos DaVincis, Galileus, etc. É que em 99% dos casos nos queremos achá-los para então queimá-los vivos e então daqui a uns 200, 500 anos os historiadores darem o verdadeiro valor que em vida estes gênios não tiveram.
O “cerumano” (sim cerumano, pois ser-humano é outra coisa) é complicado. Quer uma coisa, mas quando encontra joga fora…
Abraços
Olá pessoal,
Obrigado pelos comentários até aqui.
Victor, obrigado por ter republicado, legal que gostou.
Luciano, respeito sua opinião, mesmo discordando dela. O movimento punk, no meu modo de ver está para a problemática atual como a revolta russa de 1905 está para e revolução russa de 1917, ou seja, é um marco zero, distanciado dos fatos, mas ainda um marco zero. É no movimento punk que surge a idéia de que qualquer um pode fazer algo, e eu concordaria com isso se estivéssemos falando de uma valorização do autodidatismo, mas não, é um dos primeiros movimentos onde se aceita “qualquer coisa”, dali em diante uma música com 2 ou 3 acordes e instrumentos mal afinados tocados por pessoas que desconhecem uma escala pentatônica passam a estar dentro do aceitável, do normal. Eu discordo dessa premissa, aceito o autodidatismo no lugar do ensino acadêmico sem problemas, mas desde que haja interesse por evolução, por pesquisa, por aprofundamento, e não por se saciar com o qualquer, com o sem profundidade, com a transgressão apenas pelo ato de transgredir.
O movimento punk não surgiu na academia, e sim nas ruas, a academia veio a estudar o punk assim como estuda qualquer movimento social, mas o movimento é de rua por natureza.
Traço um paralelo com o futurismo italiano, um movimento artístico e político que pregava a destruição de museus (segundo o manifesto futurista de Marinetti), o futurismo morreu como estilo rapidamente, junto ao fascismo que ele apoiva, pois esteticamente o movimento não se sustentou, precisava gritar e bradar contra a academia pois não tinha conteúdo para discutir respeitosamente as suas discordâncias.
Cuspir numa escultura é um ato semelhante, não manifesta discordância e sim agressão, e cultura e inteligência deveriam, no meu modo de ver, pressupor a capacidade de dialogar, manifestar a discordância por mais severa que fosse, de forma respeitosa, então não posso concordar com a frase citada.
Como eu disse, é um direito seu ter essa opinião e o respeito por isso, apenas não concordo com as premissas do movimento punk e portanto o considero um prenúncio do que hoje chamo de era das trevas.
Manuela, sobre suas colocações, tenho algo a dizer: estude, faça a diferença, não se contente com pouco, tenha profundidade nas coisas que faz, é a sua geração que, com tanta informação disponível, tem a capacidade de mudar a pobreza intelecutual do tempo atual, se cada jovem (eu me incluo nisso, tenho 34 anos), não se contentar com qualquer coisa, resolver se aprofundar por querer evoluir e não só para ganhar nota nos trabalhos de escola ou faculdade, algo irá melhorar.
Grande abraço,
Armando
Manuela,
É preciso dizer outra coisa. Uma menina que, aos 16, escreve como você o faz – corretamente e com uma boa cadência de idéias – pode ir longe. Principalmente por fazer parte da geração da internet, do msn, etc.
Você já está, talvez, uns dois passos à frente.
Abraço,
Jock
Tá vendo Armando e Jock, que maravilha!
Bons textos como esse sempre rendem excelentes discussões! Mais uma vez dou meus parabéns.
Fico feliz também com a participação da Manuela (só 16 anos, e já argumentando tão bem, continue assim!!!). Os pontos-de-vista do Marco e do Luciano também são muito interessantes. Legal acompanhar essas manifestações. Levarei para minha aula dessa semana (quarta-feira) a idéia central de seu texto Armando, vamos ver a reação, depois conto.
Abraço a todos.
Legal Victor,
Depois nos conte como foi!
abraço
Muito bom!
Jah faz algum tempo q comento isso com alguns amigos… naum temos mais bandas q irão fazer parte da história da música!!!
NX ZERO ??? Cade Led Zepellin, Pink Floyd… falo do Rock, pois eh o q eu conheço, mas podemos citar “n” outras bandas antigas q fizeram história no seu estilo…
Necessitamos de novos pensadores!!!! URGENTEMENTE!!!
Abs.
Armando,
Concordo em partes com o que você põe em discussão. Realmente é notório um mundo onde os acomodados tomam maior espaço e não edificam a sociedade. Não é tão fácil encontrar pensadores, filósofos, pesquisadores, enfim, essa galerinha que mostra a que veio. Porém, acho que tudo isso é reflexo de um mundo de possibilidades, onde tudo vem com maior facilidade e sem questionamentos. Como você disse, os alunos hoje nomeiam de pesquisa o que copiam da internet. Então, se alguém já está fazendo isso em algum lugar, para que se dedicar? Assim, o mundo vira cópia da cópia e os que criam estão cada vez menos visíveis. Ainda assim, acredito que existem pessoas por aí fazendo o novo. E é esse novo que é reproduzido de tantas formas que se torna velho e aparentemente sem sentido. Bem, acho que antes os assuntos eram muito generalizados e os pensadores pensavam de TUDO um pouco. Agora, a segmentação faz cada um se especializar em uma área e acredito que quando meus bisnetos nascerem vão ouvir falar muito bem de Kotler, por exemplo. Rs*
Essa é minha singela contribuiçao!
Bjus
Cyntia, li algumas vezes seu comentário e a idéia que me veio foi a seguinte, meio Tostines: seria essa problemática um reflexo do mundo atual, ou afinal o mundo atual é que é reflexo das pessoas que agem da forma descrita?
Eu creio que o mundo em que vivemos seja um reflexo do comportamento de nossa sociedade, ou seja, de nós mesmos, se o mundo está assim, e ruim, é por que o fizemos dessa forma, cada um de nós.
[]’s
Armando
Concordo em partes com este seu texto.Mas não acredito que seja por causa dos movimentos Punk,que atualmente não se cria nada de novo,na verdade eu acredito que seja que é porque NÃO TEM MAIS NADA pra ser criado.Mas tirando,essa parte,acredito que você tem razão,e realmente nos falta Grandes Homens,que nos ajudem a pensar,tambem gostaria de saber por andam eles.
Deixe seu comentário!
Assine o RSS da Casa do galo
2049 assinantes
Publicidade
Leia também
Vou ser sincero com vocês: eu ia escrever sobre aquele programinha de faz-de-conta que pega um bando de estudantes e brinca de gangorra com o ego deles para depois chutar a boca de cada um. Porém, resolvi deixar o Jr. de lado e conversar com vocês que possuem uma dedicação autêntica sobre o caminho profissional [...]
O trabalho com pacientes na clínica da universidade tem me trazido importantes reflexões sobre a profissão de psicólogo e o processo de psicoterapia em si.
A primeira conclusão a que cheguei, logo no início: pouco se sabe da Psicologia até vivenciá-la na prática. Os conceitos aprendidos em sala de aula permitem um forte embasamento para tomar [...]
Pirataria. Prejuízo financeiro para as empresas que pagam impostos e deixam de vender seus produtos originais por um produto feito clandestinamente. Mercado covarde, onde o Davi engole o Golias sem dar tempo de reação. Prejuízo para o governo, que deixa de recolher impostos dessas empresas e se vê rodeado por um problema quase que sem [...]
Vagas para publicidade
Artigos recentes
Mais comentados
Mais lidos
Casa do galo by Diego Jock is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.
Based on a work at casadogalo.com. Permissions beyond the scope of this license may be obtained by contacting this blog editor.