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A hora da verdade

9 outubro 2009 8 comentários escrito por Claudinei

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Quando eu ainda fazia estágio na primeira agência em que tive oportunidade de trabalhar, minha função era basicamente atendimento. Havia um cliente na agência que, hoje, não existe mais. Essa empresa, que vendia doces a granel, chamava-se Palácio dos Doces (se não me engano), e era atendida pela agência mais como favor do que como cliente. Não por maldade, mas porque era um favor mesmo: o cliente pagava, praticamente, um valor simbólico, dentro das suas possibilidades que não eram muitas; melhor dizendo, eram quase inexistentes. O dono da agência prestava uma espécie de consultoria financeira para a empresa.

Eu, na condição de estagiário que não se preocupava muito com este tipo de interesse da agência, atendia o cliente com a maior vontade. E, além de ter me proporcionado uma experiência inesquecível, esta empresa me deixou uma lição maravilhosa.

O casal dono da empresa não podia sustentar a situação econômica. A loja não se sustentava. Explico: os doces vendidos a granel possibilitavam às pessoas comprarem a quantidade que quisessem. Normal, existem várias lojas com a mesma proposta. Mas não aqui. Aqui não existe e o Palácio dos Doces era a única. Tinha boa localização, um galpão grande, variedade, quantidade, preço; ao redor, diversas escolas – públicas e particulares – com concentração de crianças. Ou seja, tinha tudo pra dar certo. E eu, como atendimento e como agência de publicidade, estava lá para resolver os problemas de comunicação deste cliente.

Nos primeiros encontros pude visualizar a dificuldade da empresa. Os donos, confiando em mim mais do que eu mesmo confiava, me mostraram os dados mais ‘secretos’ de qualquer empresa, entre eles o balanço financeiro. Isto me deu um quadro geral da situação e eu não fazia outra coisa a não ser pensar em como a comunicação e a propaganda poderiam resolver os problemas que eles me apresentaram. E mais: sem qualquer dinheiro e eu com cerca de 2 anos longe do diploma da faculdade.

No dia seguinte liguei para este cliente e marquei uma reunião na loja. Eu estava decidido a dizer algumas coisas e não via obstáculo para não fazer isso. Então, cheguei para a reunião, pedi que me deixassem falar algumas ideias e depois iríamos conversando, afinal eu não tinha absoluta certeza de que meus pensamentos poderiam reverter a situação ruim; era um brainstorm com o cliente, mas que não tinha muita coisa a ver com comunicação. Basicamente o que eu disse foi:

Caríssimos, tenho uma conclusão simples a fazer depois do que vocês me mostraram e ela só mostra dois caminhos: 1) mantemos o ticket médio dos consumidores no mesmo valor (cerca de R$ 2,00/dia/cliente) e aumentamos o número de clientes; ou 2) fazemos os consumidores freqüentes aumentarem o ticket médio e os incentivamos a trazer mais clientes. Caso contrário, não vejo saída para a empresa e aconselho o fechamento com uma estratégia financeira para pagar os fornecedores.

Eu não fazia ideia da resposta que poderia surgir depois do que falei. Provavelmente ignorariam todas as minhas palavras. E qual não foi minha surpresa e para minha total felicidade, o casal proprietário da loja tornou-me um consultor mirim da empresa. As coisas só eram feitas e decididas depois de uma opinião minha.

Depois de algum tempo e algumas trocas de ideias com um outro colega e criativo da mesma agência, arriscamos uma campanha de Dia das Crianças com apelo solidário: doação de brindes, sorteio de cestas e vale-compras, etc. A campanha, em si, foi bem aceita e deu certo. Não foi melhor porque não havia recursos e não tínhamos toda a experiência e conhecimento necessários.

A loja fechou, como eu disse. Mas eu contei tudo isso pra dizer uma coisa: os clientes querem comunicação integrada; os clientes contratam uma agência para resolver seus problemas de comunicação. Mas, muitas vezes, o problema não está só na comunicação; ou nem está nela. Às vezes o problema está no cliente, em algum detalhe do qual uma agência de publicidade não é responsável e do qual nenhuma estratégia de comunicação trará o resultado esperado.

A história acima foi bastante resumida. Durante o tempo que atendi a empresa falamos e fizemos de tudo: desde atendimento da loja, mudança de produtos nas gôndolas colocando os mais atrativos no fundo para que os consumidores tivessem que passar por toda a loja e, quem sabe, se interessar por mais produtos, e muitas outras coisas.

Eu não entendo e, na época, entendia muito menos sobre planilhas de custos de uma empresa. Eu faço publicidade e o cliente contrata uma agência para fazer publicidade e outros serviços diversos de comunicação. Mas poucos clientes ouvem certas verdades de suas agências. Se sua agência faz isso, ótimo. Se faz vez ou outra, que bom. Se não faz, que pena. Se o cliente aceita e discute as verdades que a agência diz, ótimo. Se ignora, que bom. Se recusa, que pena.

Mas uma coisa eu posso afirmar: nenhuma recompensa ao seu esforço e ao seu trabalho pode ser maior do que ouvir de um cliente, marejado de lágrimas, que sem sua ajuda a empresa não saberá como continuar seguindo seu caminho. E aí, se seu cliente fala isso sobre sua agência, ótimo. E aí é contigo: o que você quer é ótimo, bom ou uma pena?

As ideias e opiniões expostas nos artigos são de responsabilidade exclusiva dos autores, e podem não refletir a opinião da Casa do galo.

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Claudinei Claudinei Junior, 25, é publicitário para viver e não vive para publicidade. Na agência Marca-X, trabalha com planejamento e mídia. Coagiu seus ex-professores com métodos nada convencionais e, por isso, também é professor universitário da Faculdade de Comunicação de Pres. Prudente (Facopp/UNOESTE). De quebra, escreve para a Casa do galo quinzenalmente, às sextas-feiras.

jrpunketone@gmail.com | http://orgasmoscerebrais.blogspot.com


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8 comentários »

  • Tweets that mention A hora da verdade | CASA DO GALO - O animal da publicidade. -- Topsy.com disse:

    [...] This post was mentioned on Twitter by O Webwriter and Maryjane Oliveira. Maryjane Oliveira said: Já se bateu com um cliente assim? clientes são lições de profissão. http://casadogalo.com/a-hora-da-verdade [...]

  • Lucas Couto disse:

    Claudinei,

    Antes de falar qq coisa sobre seu texto, preciso fazer um breve prólogo. Cara, eu sou extremamente crítico com o que leio, e em geral acho 90% do q vejo pela internet pouco interessante (pra não usar nenhum termo chulo).

    Dito isso, preciso dizer que fiquei LITERALMENTE (no sentido literal de “literalmente”, não só pra ressaltar), arrepiado com seu texto.

    Acho que a maioria das pessoas, publicitários ou não, não percebem a influência que tem na vida das outras pessoas.

    Essa experiência que você teve (e que eu tive a sorte de ter vivido tb), é uma das mais engrandecedoras para que nós possamos entender nosso papel no mercado de trabalho, e no mundo.

    A gente não percebe quantas pessoas dependem da gente, direta e indiretamente. Nós não precisamos viver num mundo de apertar parafusos das 8h às 17h. Enxergando nosso impacto no mundo, fica mais fácil ultrapassar os obstáculos do dia-a-dia, e, em última instância, ser feliz.

    Obrigado pelo texto!
    Abraços!

    [Responder]

  • Fique por dentro Animal » Blog Archive » A hora da verdade | CASA DO GALO - O animal da publicidade. disse:

    [...] atendimento. Havia um cliente na agência que, hoje, não existe mais. … fique por dentro clique aqui. Fonte: [...]

  • Ocappuccino.com disse:

    “Mas uma coisa eu posso afirmar: nenhuma recompensa ao seu esforço e ao seu trabalho pode ser maior do que ouvir de um cliente, marejado de lágrimas, que sem sua ajuda a empresa não saberá como continuar seguindo seu caminho.”

    Nossa, que aprendizado. Resumiu perfeitamente a relação agencia/cliente. A agencia que aceita um trabalho e não tira a bunda da cadeira para ver a real necessidade do cliente ou a realidade da empresa não está colaborando. Como fez com este cliente, é preciso pensar mais do que em publicidade, é preciso pensar em comunicação.

    MATEUS

    [Responder]

  • Gilberto C. Moreira disse:

    Belo artigo Claudinei.

    [Responder]

  • Gisely disse:

    Olá, assino o feed e realmente, não importa como entramos em contato com o cliente, como publicitário, vitrinista (meu caso), sempre é possível ajudá-lo no todo.
    Aproveitando, vc pode me informar qual o nome correto daqueles painéis em que se apresentam os projetos em uma reunião com o cliente? (geramente pretos com a imagem)? Preciso deles urgente.
    Desculpe sair do tema, grata!

    [Responder]

  • Fernando Luz disse:

    Às vezes, acho que o maior problema da estrutura nas agências sejam as comissões para o Comercial. Elas incentivam a cultura do “quanto mais fizermos melhor” e, assim, a gente acaba vendendo o que o cliente não precisa, para resolver problemas que ele nem tem. E isso acaba totalmente com a imprescindivel sinceridade do relacionamento Cliente X Agência.

    [Responder]

  • Publicidade para publicidade | CASA DO GALO - O animal da publicidade. disse:

    [...] artigo anterior comentei sobre o “algo mais” que a publicidade pode oferecer aos clientes, indo além da [...]

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